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Archive for Julho, 2008


No século XVIII, extinguiu-se a capitania do Funchal. Terminava, assim, em 1766, a vida de uma instituição que se mostrara administrativamente eficaz no século XV, constituindo até um modelo para outras áreas de povoamento ou colonização do Atlântico, mas que há muito agonizava por não corresponder às reais necessidades de um território nem de um Estado em progressiva afirmação.


Ao nível económico, o vinho atingiu, em Setecentos, altos valores de exportação. Os britânicos dominavam o comércio vinícola. Pela elevada reputação do vinho da Madeira nos mercados coloniais, o Funchal tornou-se importante porto de escala das rotas marítimas para as Índias Orientais e Ocidentais, sobretudo para carregamento de pipas e refresco. Alterações na conjuntura internacional repercutiam-se, naturalmente, na economia insular. Exemplo disso foi a guerra da independência das colónias inglesas da América do Norte que impossibilitou a exportação vinícola e a importação de cereais, ficando o porto do Funchal, nesse tempo, sem a habitual “multidão de navios americanos”.


Assiste-se, nesta centúria, ao desenvolvimento do regime de colonia, sistema de exploração agrária somente extinto por Decreto Regional n.º 13/77/M, de 18 de Outubro. A colonia marcou a sociedade madeirense por mais de dois séculos e meio, sobretudo por certas obrigações aviltantes impostas aos caseiros e pelas arbitrariedades cometidas por alguns senhorios. Com frequência, o contrato de colonia conduzia à miséria e condenava à emigração os trabalhadores rurais e as respectivas famílias.


A 1 de Abril de 1748, um violento sismo provocou grandes estragos em toda a ilha e quatro mortes. A Sé, por exemplo, sofreu danos significativos. Pelas relações dos prejuízos, pode-se atribuir, a este terramoto, o grau VIII da escala de Mercalli. Esta calamidade desencadeou, na cidade do Funchal, grandes manifestações religiosas, em especial, procissões, vias-sacras, confissões, práticas exortatórias e doutrinais.


No plano cultural, atente-se, em primeiro lugar, ao labor historiográfico de Henrique Henriques de Noronha (1666-1730), que nos legou duas obras, ainda hoje, fundamentais: Nobiliário da Ilha da Madeira (1700) e Memórias Seculares e Eclesiásticas para a composição da História da Diocese do Funchal (1722). Noronha era um académico provincial da Academia Real da História Portuguesa. As suas memórias enquadravam-se num projecto desta instituição.


Francisco de Vasconcelos Coutinho (1665-1723) é um poeta funchalense de mérito, representado no cancioneiro barroco Fénix Renascida e com várias obras publicadas.


Ao nível do ensino, após a expulsão dos padres da Companhia de Jesus, tratou, de imediato, Sebastião José de Carvalho e Melo de providenciar uma reforma dos Estudos Menores. Contudo, só por Carta de Lei, de 6 de Novembro de 1772, se efectivou um plano de instrução pública em Portugal. Esta legislação permitiu o estabelecimento, no Funchal, de duas escolas de “ler, escrever e contar”. Quanto ao equivalente ao ensino secundário, nos finais de Setecentos, leccionavam-se cadeiras de Latim, Filosofia, Retórica e Grego, no edifício do antigo Colégio dos Jesuítas. De salientar, nesta época, o magistério e a actividade literária do Professor Régio de Filosofia Racional, Francisco Manuel de Oliveira (1741-1819).


Na segunda metade do século XVIII, chegaram ao Funchal novas ideias, que o movimento das Luzes ia difundindo pela Europa e cuja entrada em Portugal o Tribunal do Santo Ofício se empenhava em combater. Surgiram, então, associações interessadas na promoção dos novos ideais. Nos finais de Setecentos, o francês Jean Joseph d’Orquigny fundou, no Funchal, a Sociedade Patriótica, Económica, de Comércio, Agricultura, Ciências e Artes. Por essa altura, funcionavam também, nesta cidade, lojas maçónicas com um número significativo de membros que se reuniam com regularidade.


Uma Casa da Ópera, edificada em 1776, no actual Largo da Restauração, e demolida em 1833, por determinação do governador absolutista, promovia espectáculos de teatro para os funchalenses e forasteiros mais esclarecidos, sendo este espaço conotado com os ideais iluministas de progresso e liberdade.


Diário de Notícias, Funchal, 6 de Julho de 2008

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