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Archive for Outubro, 2010

 

DN_2010OUT24

Segundo o Diário de Notícias do Funchal, de 24-10-2010, «a Madeira está na cauda do país em matéria de educação. Em todos os ciclos de estudo, a Região tem as mais elevadas taxas de insucesso…».

Nos últimos trinta anos, construíram-se muitas escolas, implantou-se a Escola a Tempo Inteiro, a educação pré-escolar generalizou-se, abriram-se novas bibliotecas, há professores em número suficiente, o apoio psicológico aumentou…

Então que razões explicam a falta de aproveitamento escolar?

Algumas hipóteses para o problema:

 

Da parte do aluno:

  • Desmotivação ou baixa auto-estima?
  • Problemas socioafectivos?
  • Problemas económicos?
  • Falta de estudo?
  • Falta de hábitos de trabalho?
  • Consciência de que o não cumprimento de regras, a não realização de trabalhos, a falta de estudo e os maus resultados não acarretam consequências, porque, afinal, não há uma cultura de responsabilização?
  • Desinteresse pela leitura, sobretudo entre os adolescentes e adultos?
  • Analfabetismo funcional (iletracia) que faz com que não compreenda o que o professor fala, não entenda o que lê e tenha tantas dificuldades em comunicar?

Da parte do professor:

  • Desmotivação, face à falta de dignificação da profissão e às actividades burocráticas exigidas?
  • Deficiente formação?
  • Falta de professores competentes e experientes pela saída de numerosos profissionais na corrida pela antecipação da aposentação?

Da parte do Poder:

  • Currículos inadequados com excesso de disciplinas, duplicação de conteúdos e carga horária exagerada?
  • Sucessivas reformas atabalhadoamente implantadas sem a devida avaliação de projectos anteriores?
  • Preocupação excessiva com dados estatísticos em detrimento da qualidade do ensino?
  • Burocratização do sistema?
  • Falta de projectos?
  • Centralização excessiva?
  • Pouca receptividade para o debate e o espírito crítico?

Outras razões haverá, e no somatório de todas provavelmente residirá a explicação para os números incríveis do insucesso escolar na RAM.

Urge um debate sobre este grave problema. Há que unir esforços para um maior aproveitamento dos nossos alunos.  

 

Ver:

http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/232655/madeira/232675-madeira-no-topo-do-insucesso-escolar

http://www.jornaldamadeira.pt/not2008.php?Seccao=1&id=165665&sup=0&sdata=

http://comqueentao.blogspot.com/2010/10/estao-matar-escola-da-madeira.html

http://comqueentao.blogspot.com/2010/10/o-estado-da-educacao.html

http://www.jornaldamadeira.pt/not2008_12.php?Seccao=12&id=165849&sdata=2010-10-27

http://comqueentao.blogspot.com/2010/10/um-secretario-do-contra-assim-educacao.html

Alunos da Região desistem e ‘chumbam’ mais

Taxas de retenção e desistência têm vindo a diminuir mas são ainda as mais altas do país

Diário de Notícias, Funchal, 30 de Dezembro de 2010, p. 8

http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/242897/madeira/242951-alunos-da-regiao-desistem-e-chumbam-mais

 

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Amanhã, ocorre o 50.º aniversário da morte de João de Barros, pedagogo republicano, poeta e pioneiro da aproximação luso-brasileira.

Nascido na Figueira da Foz em 1881, formou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Cedo enveredou pela carreira docente, sendo professor de Português e Francês em vários liceus: Coimbra, Porto e Lisboa.

Distinguiu-se, sobretudo, como pedagogo associado ao movimento da Escola Nova e às reformas republicanas da Educação.

Afastado da vida política pela Ditadura, instituída na sequência do golpe militar de 1926, e pelo Estado Novo, ardilmente edificado por Oliveira Salazar, manteve-se, no entanto, toda a vida fiel aos princípios republicanos e democráticos.

Participou em várias manifestações da Oposição. Em 1945, aderiu ao Movimento de Unidade Democrática. Apoiou as candidaturas à Presidência da República de Norton de Matos e Humberto Delgado. A partir de 1952, no Diário de Lisboa, tanto quanto lhe foi permitido pela Censura, continuou a sua doutrinação pedagógica em prol da educação como factor de progresso social e civilizacional.

Morreu em Lisboa a 25 de Outubro de 1960. O Diário de Notícias da Madeira noticiou o seu falecimento na primeira página, apresentando breve resenha da sua vida e obra e exaltando a sua qualidade de «grande democrata».

 

Um homem novo

Em 1907, como bolseiro, João de Barros, acompanhado por João de Deus Ramos, empreendeu, durante quase um ano, uma viagem de estudo com fins pedagógicos a Espanha, França, Inglaterra e Bélgica. A visita a reputados estabelecimentos de diversos graus de ensino permitiu-lhe conhecer experiências pedagógicas inovadoras. De salientar a sua presença na Institución Libre de Enseñanza, onde leccionava Alice Pestana (1860-1929), de ascendência madeirense, com quem manteve relações de amizade.

Do relatório desta missão nasceu o livro A Escola e o Futuro: notas sobre Educação, publicado em 1908. Nesta obra, deu conta das impressões e ensinamentos da viagem pedagógica que realizou. Igualmente, desenvolveu a ideia de futuro, com novos homens, novos cidadãos: uma humanidade mais perfeita, «capaz de viver no futuro, sem o peso dos nossos preconceitos, dos nossos sentimentos, das nossas ideias».

O educador, por conseguinte, não deveria «dar ao Futuro almas do passado, almas como as nossas, vivendo do que já viveu, tremendo do que já não existe: – mas energias livres, indomadas, virgens – e aptas a tornar mais belas, e mais intensas e mais complexas as ideias, as lutas, as ambições desse Futuro, que há-de ser o seu presente.»

João de Barros preconizava uma educação integral – uma educação nova – que possibilitasse o desenvolvimento harmonioso de todas as faculdades e todas as energias da criança.

Condenava o jesuitismo, que ainda dominava o ensino, originando meninos prodígios que depois se transformavam em «homens sem inteligência, sem iniciativa, sem amor ao estudo e ao trabalho».

Defendia, portanto, a escola laica com uma educação capaz de criar um homem novo, com bom desenvolvimento físico e moral (moral laica), com competências para o exercício da cidadania, orientada pelos princípios republicanos da Liberdade, Igualdade e Solidariedade.

Para João de Barros, o homem novo era o cidadão republicano que havia beneficiado da educação integral: um cidadão trabalhador, feliz, patriota, de carácter progressista, bom, solidário, altruísta, ou seja, dotado de um conjunto de elevadas virtudes, que a utopia do seu ideário pedagógico comportava.

Em 1909, publicou o folheto João de Deus, o único educador nacional que apresentara como comunicação no II Congresso Pedagógico, promovido pela Liga Nacional de Instrução em Abril desse ano. Neste estudo, sustentava que a Cartilha Maternal constituía uma base para a remodelação geral do sistema de ensino, acentuando a forte relação entre o professor e o método: «se não há bons métodos sem bons professores, não há também bons professores sem métodos bons».

Estes dois trabalhos colocaram João de Barros «no âmago da batalha republicana pela escola», segundo a feliz expressão do saudoso Professor Rogério Fernandes (1933-2010).

 

João de Barros e a República

Dez dias depois da implantação da República em Portugal, João de Barros foi chamado a integrar uma comissão que haveria de elaborar o Regulamento para a instrução militar preparatória. Esta seria uma das várias missões, no domínio da Educação, que desempenhou em diferentes governos da I República, desde chefe de repartição, a secretário-geral ou director-geral do Ministério da Instrução Pública.  

Contudo, o seu nome e o de João de Deus Ramos ficaram, sobretudo, ligados à Reforma da Instrução Primária de 29 de Março de 1911, arquitectada de forma ideal, mas longe de ser cumprida.

No Preâmbulo deste diploma, pode ler-se:

Educar uma sociedade é fazê-la progredir, torná-la um conjunto harmónico e conjugado das forças individuais, por seu turno desenvolvidas em toda a plenitude. E só se pode fazer progredir e desenvolver uma sociedade fazendo com que a acção contínua, incessante e persistente da educação, atinja o ser humano sob o tríplice aspecto: físico, intelectual e moral.

Portugal precisa de fazer cidadãos, essa matéria-prima de todas as pátrias e, por mais alto que se afirme a sua consciência colectiva, Portugal só pode ser forte e altivo no dia em que, por todos os pontos do seu território, pulule uma colmeia humana, laboriosa e pacífica, no equilíbrio conjugado da força dos seus músculos, da seiva do seu cérebro e dos preceitos da sua moral.

Apesar de João de Barros e João de Deus Ramos terem acusado o ministro António José de Almeida de publicar no Diário do Governo um decreto diferente da sua proposta, e que havia sido já discutida e aceite, verdade é que, na sua essência, este preâmbulo tal como as disposições legais revelam o pensamento dos seus autores, no que diz respeito à instrução primária.

O Decreto de Março de 1911 regulava ainda os ensinos infantil e normal. Para o ensino primário, foram definidos três escalões, sendo o elementar, com a duração de três anos e sujeito a exame final, obrigatório e gratuito para ambos os sexos, o que constitui uma medida notável na implementação da instrução pública no nosso país.

Na bibliografia do nosso autor, é de salientar A Nacionalização do Ensino (1911), A República e a Escola (1914), Educação Republicana (1916) e Educação e Democracia (1916), obras fundamentais para a compreensão da pedagogia democrática e republicana. Mas igualmente, há que ter em conta a sua colaboração na revista A Escola Nova, da qual foi redactor, e Atlântida, que fundou com João do Rio (Paulo Barreto), bem como a sua ligação ao movimento Renascença Portuguesa (jornal Vida Portuguesa e revista A Águia) e ao grupo da Seara Nova.

De acordo com João de Barros, a República tomou a educação e a instrução como «duas bandeiras de batalha», porque tinha consciência de que «sem instruir as novas gerações, dentro dum critério republicano, que seja ao mesmo tempo um critério pedagógico, ninguém poderá garantir o futuro da República e da Pátria.»

 

Para as crianças e o povo

Finalmente, e no âmbito das suas preocupações pedagógicas, em especial a promoção da leitura e o combate ao analfabetismo, é justo mencionar o empenho de João de Barros na divulgação de obras clássicas, em adaptações para a infância, a juventude e o povo, como Os Lusíadas, A Odisseia, A Ilíada e A Eneida, com sucessivas edições desde a década de 1930 até à actualidade. Com idênticas preocupações, publicou também uma adaptação livre das Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift.

 

Diário de Notícias, Revista Mais,

Funchal, 24-30 de Outubro de 2010, pp. 20-21 

 

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Viva a República

Só com coragem, determinação, trabalho e patriotismo conseguiremos ultrapassar a crise económica e financeira.

 A República democrática é o melhor caminho para Portugal.

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Entrevista conduzida pelo jornalista Alberto Pita

JORNAL da MADEIRA – Ganhámos ou perdemos com a República? 
NELSON VERÍSSIMO — A implantação da República constitui um facto histórico. Aconteceu, de verdade. O que ocorreria se a revolução republicana não tivesse triunfado, é coisa que não se pode saber. Por isso, esse confronto – ganhar ou perder – sai fora do domínio da História. Falta o elemento de comparação. Não se pode analisar historicamente o passado que não existiu, nem tão-pouco compará-lo com o que, com efeito, se verificou. Mas como republicano, considero a República mais consonante com a Democracia, porque não privilegia a condição de nascimento e permite, através do sufrágio, o reconhecimento de projectos, méritos e capacidades de liderança, empatia ou convencimento do eleitorado. Então, a minha convicção ideológica leva-me a dizer que ganhámos com o 5 de Outubro, apesar de admitir que a I República falhou na concretização dos principais objectivos dos republicanos que lutaram pelo derrube da realeza.

JM – Como se explica que a vitória dos republicanos, com a proclamação da República em 1910, tenha sido conseguida de uma forma relativamente fácil?
NV – Nas últimas décadas do século XIX e inícios do XX, havia uma grande insatisfação na sociedade portuguesa, principalmente nos meios urbanos, onde a consciência política era mais viva. O conflito diplomático com a Inglaterra, em 1890, na célebre questão do “mapa cor-de-rosa” e do “ultimato”, desacreditara os políticos monárquicos e o próprio Rei, desencadeou uma onda de fervor patriótico e fez aumentar o número dos que acreditavam que a implantação da República, no nosso país, seria a melhor solução. Entre 1890 e 1910, Portugal viveu momentos conturbados: crise financeira; divisões e cisões no seio das duas principais forças partidárias – regeneradores e progressistas; confrontos radicais entre estes dois partidos monárquicos; completo descrédito dos seus líderes e, por conseguinte, decomposição das forças políticas que sustentavam a monarquia constitucional; agravamento de impostos; intervenções desastrosas do rei D. Carlos ou incompreensíveis atrasos em decisões urgentes; “adiantamentos” à Casa Real, o que originava laços de dependência ou compromisso do rei com os políticos liberais que assinavam esses empréstimos; problemas internacionais para manutenção das colónias e afirmação da soberania portuguesa nesses territórios; corrupção; agravamento das condições de vida, principalmente dos mais desfavorecidos; elevada taxa de analfabetismo; forte emigração, principalmente para o Brasil. Enfim, o regime monárquico agonizava e os republicanos agitavam a capital, procurando mais adeptos para a causa revolucionária. Em 1907, o rei D. Carlos tinha contra si muitos políticos monárquicos que haviam integrado sucessivos governos, por ele nomeados. O regicídio em Fevereiro de 1908, o fracasso da “monarquia nova”, de D. Manuel II, em especial pela falta de um político monárquico com prestígio e capacidade de liderança, precipitaram os acontecimentos. Por todo o país, os Centros Republicanos desenvolviam activas campanhas de promoção do ideário republicano, estimuladas pelos numerosos escândalos políticos denunciados pela imprensa. A opinião pública era muito forte e a imagem da monarquia apresentava-se bastante degradada. Havia grupos organizados que planeavam o fim do regime monárquico. Por exemplo, a Associação Promotora do Registo Civil, a Maçonaria e a Carbonária trabalhavam para a implantação da República. O derrube da monarquia, a 5 de Outubro de 1910, não foi, portanto, acontecimento inesperado. E, como afirmou Raul Brandão, nas suas “Memórias”, bastou um estrondo para desabar o trono.
 
JM – Apesar das muitas expectativas criadas com a implantação da República, Portugal viveu uma muito conturbada I República. Em 16 anos foram nomeados 45 governos! Tal decorreu apenas das divergências entre as facções dos republicanos?
NV – Principalmente, por isso. Mas há que juntar a própria natureza do regime adoptado pela Assembleia Constituinte em 1911: o parlamentarismo proporcionou a instabilidade governativa e presidencial. Depois, muitos políticos republicanos não se mostraram à altura da difícil situação do país e, em algumas questões, como o relacionamento com a Igreja (Lei da Separação) e o Exército, foram mesmo inábeis. A I República herdou e prolongou muitos dos erros e vícios da Monarquia Liberal, que os republicanos tinham o propósito de debelar. Além disso, o contexto internacional foi também desfavorável, em especial, a eclosão da Grande Guerra e a entrada de Portugal neste conflito. 
 
JM – A Revolução de Maio de 1926 veio pôr fim a uma certa “anarquia” que existiu no País, mas simultaneamente abriu caminho para o surgimento do Estado Novo, com a aprovação da Constituição de 1933. Como se justifica este período?
NV – O golpe militar de finais de Maio de 1926, que instituiu a Ditadura Militar, mostra-se como acção esperada, por alguns até fortemente ansiada, e inevitável, face ao fracasso do projecto republicano e da grave situação socioeconómica e financeira do país. O Sidonismo foi, de certa forma, uma experiência pioneira, nesse processo de redenção da República. Já o Estado Novo corresponde ao projecto pessoal de Oliveira Salazar e à sua ideologia anti-democrática e conservadora, de forte oposição ao republicanismo e ao comunismo. Mas a ditadura salazarista resulta, sobretudo, das leis promulgadas à sombra da Constituição de 1933 e do aparelho repressivo instaurado. A designação oficial do regime continua a ser “República Portuguesa”. A bandeira, o hino e a moeda também permanecem. Igualmente, o feriado do 5 de Outubro ficou. Mas o Estado Novo nada tem a ver com o republicanismo. 

JM – Em 1931, a Madeira protagonizou uma revolta contra o regime. Quais foram as consequências para os madeirenses? 
NV – Esse é um assunto mal estudado. Fala-se de represálias, de exigência de pagamento das despesas feitas pelo governo para sufocar a revolta, mas tudo isso está mal documentado. E a verdade é que o Estado Novo investiu bastante em infra-estruturas do arquipélago da Madeira, no sentido da sua modernização, como, por exemplo, estradas, porto do Funchal, aeroportos, edifícios públicos…. Basta dar uma volta pelo Funchal e observar a arquitectura.
 
JM – A verdade é que quase metade do século XX foi passado sob o domínio da ditadura. Até que ponto Portugal foi prejudicado pelo regime e quais foram as vantagens de vivermos “orgulhosamente sós”. 
NV – Evidentemente que a falta de liberdade, a repressão e o isolamento prejudicaram Portugal, com significativo atraso em relação a alguns países da Europa: atraso económico e cultural. Ainda hoje, abundam tiques e práticas da ditadura, que vigorou até ao 25 de Abril, e que parecem enraizados na mentalidade de alguns portugueses, em prejuízo da vivência democrática.
 
JM – A Revolução dos Cravos trouxe liberdade mas levou as colónias africanas, que o regime anterior tanto lutou por manter. A abertura ao Mundo e a evolução do País no último quartel do século XX são o melhor período do País na época em análise? 
NV – Tanto os monárquicos liberais, quanto os republicanos, e depois os dirigentes do Estado Novo, procuraram, com diferentes argumentos e perante cenários diversos, preservar as colónias portuguesas. Mas nada fica para sempre. Tantos impérios desapareceram e tantos de novo surgiram ao longo da História. Contudo, ainda é cedo para analisar, em termos históricos, estas últimas décadas. Por outro lado, é sempre contraproducente comparar diferentes períodos históricos. Este é o nosso tempo, aquele que vivemos, logo para nós é o mais importante. Mas, independentemente, disso, a ligação de Portugal à Europa, através da entrada na Comunidade Económica Europeia, em 1986 parece-me ser um acontecimento determinante no progresso do País. 
 
JM – A implantação da República trouxe benefícios para as ilhas da Madeira e dos Açores?
Ao nível da autonomia administrativa, nada se alterou, apesar de frequentes reivindicações de mais competências e mais recursos financeiros. No entanto, como de resto em todo o país, há sempre benefícios, pelo menos ao nível cívico: promoção da instrução pública e da cultura; desenvolvimento da opinião pública; participação democrática, embora os republicanos não tivessem instituído o sufrágio universal; afirmação da mulher. 
 
JM – Quais as principais alterações que a I República produziu em termos da administração dos territórios insulares e de mentalidades e vivências, particularmente da Madeira?
NV – É mais fácil falar de mudanças institucionais do que as referentes a mentalidades e vivências. Este é um processo do tempo longo, que, logicamente, não se pode cingir a 16 anos. Há, contudo, uma “marca” de medo em diversas gerações com origem nos bombardeamentos dos submarinos alemães, em 1916 e 1917, que provocaram o pânico entre as populações e algumas vezes ditaram fugas precipitadas ante boatos de eventuais ataques à ilha.
A I República trouxe, no entanto, para a Madeira novas instituições, como a Junta Agrícola, a Junta Autónoma das Obras do Porto do Funchal, mas também extinguiu a Escola-Médico Cirúrgica do Funchal. Aliás, já anteriormente se falou, por diversas vezes, na sua extinção. Foi também na I República que se instituiu o município da Ribeira Brava.

 

Jornal da Madeira, Funchal, 4 de Outubro de 2010, pp. 4-5

http://www.jornaldamadeira.pt/not2008.php?Seccao=14&id=163898&data=2010-10-04



 

 

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A partir da madrugada de 4 de Outubro, desencadeou-se o movimento revolucionário que pôs fim à Monarquia em Portugal.

Depois de momentos de incerteza, algum desespero e deserção, ditados, em grande parte, pela divulgação da notícia do assassinato do médico Miguel Bombarda e do suicídio do almirante Cândido dos Reis, chefes civil e militar da revolta, respectivamente, a determinação e a coragem do comissário naval, Machado Santos, foram decisivas para a vitória das forças republicanas na Rotunda.

Pelas 9 horas do dia 5 de Outubro, José Relvas e Eusébio Leão proclamaram a República na varanda da Câmara de Lisboa. De imediato, surgiram profundas divergências entre os chefes militares revolucionários e os republicanos da edilidade lisboeta, por causa da composição do Governo Provisório. Este incidente não augurava bom futuro à República e à republicanização do país.

O poeta Guerra Junqueiro considerou o triunfo dos republicanos como «o milagre da Rotunda». Gomes da Costa viu a Revolução como «uma fuga; uma debandada», de monárquicos e republicanos. Por sua vez, Raul Brandão, repetindo o que diziam os vencidos, escreveu que foi um «bambúrrio», isto é, um acaso feliz, acrescentando que «bastou um estrondo para desabar o trono». O resto fez o telégrafo, difundindo informações sobre os acontecimentos da capital. E, por todo o país, fervorosos republicanos e adesivos foram dando vivas à República, recém-implantada, e agitando bandeiras verde-rubras, acompanhados por bandas de música.

Esperada e conhecida de véspera, praticamente não houve resistência das forças monárquicas à insurreição republicana. A monarquia, com mais de sete séculos, agonizava, em especial após o ultimato inglês. O que se passou depois pode ser resumido a uma triste, desonrosa e ruidosa caminhada para o abismo. Em Janeiro de1890, em Os pontos nos ii, Bordalo Pinheiro alvitrou um cognome para o rei: «D. Carlos I, o último». Só o regicídio impediu a consumação do inteligente presságio do caricaturista.

Em suma, envolvidos em escândalos e actos de corrupção, não dando respostas aos graves problemas socioeconómicos e financeiros do país, os políticos monárquicos contribuíram activamente para a queda do regime que os suportava, e o próprio rei acompanhou-os com a sua inépcia política e despesismo, pretendendo mesmo, em 1907, extinguir o constitucionalismo e prosseguir em ditadura.

Contudo, os republicanos não conseguiram realizar a República por eles sonhada. Com lucidez, afirmou, a propósito, João Chagas: «O mais grave erro da República foi o de não ter sabido realizar-se.»

Diversas vozes proclamaram então ser preciso fazer outra República. E vieram a República Nova, de Sidónio Pais, a Ditadura Militar em 1926 e o Estado Novo na década seguinte.

Com o mesmo espírito de esperança, a Revolução do 25 de Abril refundou a República, libertando-as das mordaças e da sua humilhante redução aos símbolos nacionais, instituídos depois do 5 de Outubro, e que Oliveira Salazar não ousou substituir.

Mas para além do hino e da bandeira, já que a moeda (escudo) se foi, o que representa ser republicano nos dias de hoje? Mais do que relembrar a História, ainda que seja tarefa útil e muito importante, por tão ignorada e esquecida, julgo ser esta a grande reflexão para o 1.º Centenário do 5 de Outubro, embora a nossa Constituição admita apenas a forma republicana de governo.

Diário de Notícias, Fumchal, 3 de Outubro de 2010

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