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Archive for Dezembro, 2007

 

Dizer-se que toda a História da Madeira foi de confronto frequente com a Natureza ou de luta, onde o homem pretendia sempre vencer, mas, por vezes, saía derrotado, parece-me ser interpretação muito restrita do quotidiano de outrora e pouco consentânea com a realidade histórica.

 

Ocupar uma ilha não habitada, mas coberta de arvoredo «tão grosso e espesso», nas palavras de Francisco Alcoforado, implicou, logicamente, o arroteamento de terras para a agricultura, aplicando-se, em alguns casos, o fogo, que chegou a tomar proporções assustadoras, mas não se converteu num incêndio de sete ou nove anos consecutivos, como escreveram diversos cronistas.

 

Houve também que canalizar água através de levadas, construir caminhos e pontes sobre ribeiras caudalosas na invernia.

 

Abateram-se árvores em busca de madeiras, para a construção local ou para a exportação, e lenhas, como combustível, para uso doméstico, fornecimento aos navios ou utilização industrial, como nos engenhos, estufas de vinho e produção de carvão.

 

Construíram-se socalcos nas encostas, os afamados poios, quando se manifestou a necessidade de novos espaços agrícolas.

 

A desflorestação das montanhas e a exploração intensiva dos terrenos trouxeram graves problemas aos madeirenses.

 

Inúmeras aluviões causaram avultado número de mortes e enormes prejuízos materiais, ao longo dos séculos. Temia-se a ribeira caudalosa. Até a Santo António foi atribuído famoso milagre na inundação de 1601.

 

Mas, sempre, ao longo da História, houve consciência, por parte de alguns, dos riscos que o enfrentamento desregrado da Natureza poderia ocasionar.

 

Abundam, em diferentes épocas, exemplos de diplomas legais promulgados com o objectivo de conciliar as carências insulares, mesmo as mais imediatas, com a preservação da Natureza. Não faltam também numerosos exemplos de infracções e de consequências funestas pelo desrespeito de regras que pretendiam salvaguardar o bem comum.

 

Bem elucidativo da preocupação em proteger a floresta e as ribeiras é o Regimento de 5 de Março de 1515, do rei D. Manuel I, acerca do corte de madeiras, lenhas e outras coisas. Neste documento, antes de estabelecer várias medidas e penas sobre o assunto em causa, o monarca afirmou estar informado de que muitas pessoas, não se preocupando com uma eventual falta de madeiras e lenhas que, aliás, já se fazia notar, atendiam mais ao seu proveito e interesse próprio do que ao bem e proveito geral.

 

De facto, a ganância do proveito próprio tem, no decurso da História, atentado ou subestimado a Natureza, e os efeitos subsequentes lesam, quase invariavelmente, pessoas sem responsabilidades nesses actos, com perdas de vidas e danos materiais.

 

Na actualidade, a autonomia político-administrativa e as contribuições europeias, trouxeram, naturalmente, oportunidades de promoção do progresso, novos desafios, novas infra-estruturas e conquista de novos espaços no exíguo território insular.

 

Estradas, túneis, pontes, viadutos, parques subterrâneos, marinas, piscinas e portos, tudo em prol da comodidade, no trabalho ou nos tempos livres, para o residente ou o turista. Mas toda esta grandiosa obra dificilmente poderá ser encarada como uma luta com a Natureza, sujeita a vitórias e derrotas, para as quais devemos estar preparados. Não é sem fundamento que se elaboram estudos prévios, inclusive de impacto ambiental. 

 

Respeitar será, sem dúvida, mais proveitoso do que atentar contra a Natureza ou menosprezá-la, e este princípio de forma mais pertinente se afirma por ser esta ilha de acidentada morfologia.

 

 

Diário de Notícias, Funchal, 2 de Dezembro de 2007

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