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Archive for Julho, 2014

Rui Santos. Foto: Jornal da Madeira

Rui Santos. Foto: Jornal da Madeira

Foi nos anos 80 do século passado que conheci, no Arquivo Regional da Madeira, o Senhor Rui Santos. Leitor assíduo do nosso Arquivo, gostava de ocupar sempre o mesmo lugar na pequena sala do rés-do-chão do Palácio de São Pedro, à Rua da Mouraria.

Ficámos amigos e conversávamos muito, sobre tudo. Nunca em cafés ou esplanadas, mas deambulando pelas ruas do Funchal ou numa esquina qualquer. Tinha uma grande capacidade de memória, e contou-me histórias interessantíssimas das suas vivências pessoais e profissionais.

Apesar de nos separarem ideologias e concepções políticas, sempre falámos de tudo. Revelava uma enorme capacidade de argumentação, em defesa dos seus pontos de vista. E gostava de esgrimir com as palavras. No Futebol, estávamos do mesmo lado. Ambos do Benfica. Mas Rui Santos, sabia muito mais do Benfica do que eu (fraco adepto!), pois lembrava-se de jogos e jogadores que eu nunca fixara e pormenores que me passavam despercebidos.

Muitas vezes, dei-lhe a ler o que tencionava publicar, nomeadamente, crónicas para a imprensa. E da sua parte, vinham sempre sugestões proveitosas. Ele fazia o mesmo comigo, e com frequência li os seus textos antes de publicados no Jornal da Madeira.

Muitas das crónicas de Rui Santos resultaram das suas investigações no Arquivo Regional e na Biblioteca Municipal do Funchal. Porque bem fundamentadas, são referências para a História da Madeira, sobretudo do Funchal, pois à sua cidade dedicou particular atenção. Ainda que nem sempre tal fosse possível, Rui Santos elegia um tema e gostava de investigar até “esgotar” o assunto. Quando lhe escapava um elemento, que considerava importante, procurava-o incansavelmente. Só publicava, quando conseguia colmatar essa lacuna.

Felizmente, muitas dessas crónicas foram catalogadas pela Biblioteca Pública Regional da Madeira, sendo hoje fácil a sua localização. Caso tal não tivesse ocorrido, o investigador seria obrigado a percorrer centenas, senão milhares, de páginas de jornais em busca dos seus muitos escritos, ao longo de décadas.

Dessa colaboração no Jornal da Madeira, saliento a série de artigos sobre a Confeitaria Felisberta (26 Nov. 1989-7 Jan. 1990), Ruas da cidade do Funchal (Fev.-Abr. 1993) e Desertas (18-23 Nov. 1990). Mas tantos outros, que não resultaram da pesquisa nas fontes documentais, mas, sim, das suas observações do quotidiano funchalense, da recolha de informações, como relativamente ao Porto Santo, ou da sua experiência profissional na Comissão dos Aproveitamentos Hidráulicos da Madeira e, depois, na Empresa de Electricidade da Madeira, são de inegável interesse para a compreensão da História da Madeira.

Rui Santos publicou:

  • Divisão das capitanias da Madeira: estudo. Funchal: 1953.
  • A construção do Teatro D. Maria Pia. Funchal: 1994.
  • Crónicas de outros tempos. Funchal: 1996.
  • Coisas do Porto Santo. Funchal: 2001.

E colaborou com importantes artigos na revista Islenha, editada pela DRAC, como os seguintes:

  • O Cemitério Israelita do Funchal. Islenha. Funchal. 10 (Jan.-Jun. 1992) 125-164.
  • A família Abudarham do Funchal. Islenha. Funchal. 12 (Jan.-Jun. 1993) 106-139.
  • As Desertas: sua dependência administrativa. Islenha. Funchal. 21 (Jul.-Dez. 1997) 23-34.
  • Eng.º Amaro da Costa: o Homem da água. Islenha. Funchal. 24 (Jan.-Jun. 1999) 85-92.
  • A demolição da muralha da cortina da cidade. Islenha. Funchal. 25. (Jul.-Dez. 1999) 38-58.

De registar ainda o seu empenho na preservação do arquivo e do acervo da Empresa de Electricidade da Madeira, colaborando activamente, mas já aposentado, na organização do arquivo daquela empresa e na montagem do Museu de Electricidade.

Disciplinado, metódico, seguro das suas convicções e intransigente com certos valores e princípios, Rui Santos foi um “homem bom” do Funchal, que se dedicou com particular afeição à “Casa da Luz”, onde trabalhou durante muitos anos, e ao Jornal da Madeira, onde entrou pelas mãos do seu pai, Carlos Maria dos Santos, e com este periódico colaborou em prol da promoção da Cultura e dos valores madeirenses, publicando com regularidade.

Os muitos artigos, que deixou nas páginas do JM, atestam do seu labor e empenho na divulgação da História e do Património Cultural da Madeira.

Nelson Veríssimo

14-07-2014

Depoimento escrito para o Jornal da Madeira, a pedido da jornalista Lúcia M. Silva, que reproduziu excertos no artigo ‘Partiu o homem das crónicas sobre o Funchal’ (Jornal da Madeira, Funchal, 15-07-2014, p. 8).

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