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Posts Tagged ‘Porto Santo’

No passado dia 6 de Junho, o Banco de Portugal colocou em circulação uma moeda de 2 euros, comemorativa dos 600 anos do descobrimento do Porto Santo e da Madeira.

Foi anunciada nos media no passado mês de Janeiro, após a publicação da Portaria n.º 16/2019 (Diário da República, I Série, n.º 10, 15-01-2019), que, no âmbito do Plano de Emissões de Moedas Comemorativas para 2019, tradicionalmente designado por Plano Numismático, autorizou a Imprensa Nacional-Casa da Moeda a cunhar a moeda de 2 euros, designada «600 anos do Descobrimento da Madeira e do Porto Santo».

De acordo com esta Portaria, a moeda teria as seguintes características: na face comum, o desenho europeu das moedas de euro em circulação; na face nacional, ocupando todo o campo central, a representação da silhueta das ilhas, onde se destacam linhas de rumo dos portulanos. A circundar a imagem do arquipélago, as legendas: «600 anos do Descobrimento da Madeira e de Porto Santo»; «Portugal 2019»; «INCM» e a indicação do autor. Envolvendo todo o desenho, as 12 estrelas, dispostas em forma circular, que representam a União Europeia.

O desenho da face nacional desta moeda constava no anexo da referida Portaria, e a imprensa regional divulgou-o.

De imediato, em 15 de Janeiro, na rede social Facebook, foram apontadas três importantes críticas acerca da representação do território da Região Autónoma da Madeira e da legenda: a) Omissão do subarquipélago das Selvagens; b) Uso incorrecto da preposição «de» («de Porto Santo», em vez «do Porto Santo»); c) Colocação, em primeiro lugar, do descobrimento da Madeira, quando, por respeito da cronologia histórica, deveria ser «600 anos do Descobrimento do Porto Santo e da Madeira».

Entregues estas críticas, logo a Comissão Executiva dos 600 anos tratou de corrigir os erros, mas somente dois mereceram a sua atenção. Surgiu, por conseguinte, a Declaração de Rectificação n.º 5/2019 (Diário da República, I Série, n.º 31, 13-02-2019), que alterou a Portaria anterior. Em concreto, emendou a legenda para «600 anos do Descobrimento da Madeira e do Porto Santo» e, no desenho, procedeu à inclusão das Ilhas Selvagens.

Declaração de Rectificação n.º 5/2019, Diário da República, I Série, n.º 31, 13-02-2019

Se Júlio Pomar executou o desenho da primeira versão, a inserção posterior do subarquipélago das Selvagens e outras alterações, inclusive na posição da assinatura, não podem ser da sua autoria, porque o famoso artista plástico faleceu em 22 de Maio de 2018.

Por ignorância ou caturrice, mas na linha daquela malformação congénita – Resolução n.º 243/2017, do Governo Regional da Madeira, que criou a Estrutura de Missão para as Comemorações dos 600 anos – manteve-se, na legenda, a precedência do descobrimento da Madeira sobre o da ilha do Porto Santo, o que está errado. Aliás, tudo o que é oficialmente publicado e dito pela Comissão dos 600 anos padece do mesmo vírus, o qual, por anormal resistência, parece ser incurável e ter o potencial de causar uma pandemia anti-histórica.

Para a posteridade, ficará uma moeda comemorativa com um percurso atribulado, e que não honra a História. Mas, sem dúvida, testemunhará como, até numa simples moeda, a Comissão Executiva dos 600 anos desconsidera o descobrimento do Porto Santo.

Maior atenção merecerá, com certeza, a leitura do valor inscrito na face comum, do que a infeliz legenda da face nacional da moeda comemorativa dos 600 anos do Porto Santo e da Madeira.

Funchal Notícias. 3 Julho 2019

Travessura numismática

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O bolo do caco, muito comum no Porto Santo e na Madeira, difere do pão, principalmente, pela natureza da cozedura e a forma redonda e achatada. Era cozido sobre um caco ou uma pedra de tufo de lapilli (cantaria mole vermelha) ou traquito (cantaria branco-suja do Porto Santo) e, nos nossos dias, sobre chapa ou numa frigideira. O pão vai ao forno. Há também quem aponte diferenças na massa (mais elástica no bolo do caco) e na levedura (menos lêveda do que o pão).

Já foram notadas semelhanças com o pão dos hebreus, referido, por exemplo, no Antigo Testamento: «pão cozido debaixo da cinza» (1 Rs 19:6). Em muitos lugares, coze-se pão sobre uma pedra aquecida. É um processo ancestral que se mantém na actualidade, em diferentes países.

O bolo do caco era o pão dos mais pobres, daqueles que não tinham forno ou fornalha e que, de uma maneira mais ou menos improvisada, coziam a massa sobre um caco ou pedra, aquecidos com lume vivo ou sobre brasas.

Acerca da naturalidade do bolo do caco, ou seja, se é originário do Porto Santo ou da Madeira, por agora e com certeza, nada se sabe. A diferença entre um e outro, quanto ao paladar, poderá ter a ver com as características da água ou a forma de levedar a massa, nas duas ilhas. De acordo com o testemunho de uma porto-santense à jornalista Alexandra Prado Coelho, «o segredo está na forma de tratar a massa, que se deve deixar levedar três vezes – e não apenas duas como fazem na ilha da Madeira» (Público, 28-05-2016).

A receita é muito simples: farinha de trigo, água, fermento e sal. Há quem acrescente batata-doce, previamente cozida e amassada, mas originalmente não entrava na massa. A utilização de um fermento natural garante-lhe o sabor original.

Cozedura do bolo do caco. Foto: © Rui Marote.

O bolo do caco associou-se à espetada e, nas últimas décadas, é iguaria reputada nos restaurantes e padarias. Nas festas e arraiais, tem presença obrigatória, barrado com manteiga de alho com salsa. Agora fazem-se pregos e hambúrgueres no bolo do caco. E há também bolo do caco com chouriço. As versões gourmet não convencem, porém, os bons apreciadores e conhecedores.

O bolo do caco vulgarizou-se, assumiu a categoria de tradicional e associou-se a outras especialidades. Deixou de ser produto exclusivamente artesanal, tornando-se industrializado.

No entanto, muitas vezes é de má qualidade, só disfarçada por estar quente e barrado com manteiga. É ver, em locais concorridos, a massa a levedar rapidamente, com fermento em excesso, porque os clientes não podem esperar. Por outro lado, a introdução de farinha de batata-doce, até da China, não o beneficia.

Desde há alguns anos, fala-se na certificação do bolo do caco, a fim de ser garantida a autenticidade e qualidade.

Com efeito, ao aumento considerável da procura não tem correspondido a produção alargada de um bolo do caco genuíno. Há, pois, necessidade de criar mecanismos de intervenção, a fim de ser garantida a qualidade de um produto tradicional. Igualmente, impõe-se a fiscalização em festas e arraiais sobre o bolo do caco e a dita manteiga de alho.

Sendo o bolo do caco tão comum na Madeira, o Mercado Quinhentista, realizado no início deste mês em Machico, não poderia deixar de lhe dedicar uma barraca. Ora, neste Mercado, procura-se uma recriação de ambientes do século XVI. Todavia, a barraca do bolo do caco constituía uma aberração. Havia uma batedeira eléctrica, para amassar, e o bolo era cozido sobre uma chapa aquecida com chama de gás.

Situações destas não deveriam acontecer num Mercado Quinhentista. O sucesso deste evento confere responsabilidades acrescidas à comissão organizadora, que, de futuro, não poderá deixar de se empenhar na eliminação de alguns anacronismos e desvios, aliás recorrentes nas últimas edições.

A recriação da amassadura artesanal do bolo do caco e da cozedura em pedra aquecida com lume de lenha, naquele Mercado, constituiria, sem dúvida, um atractivo bem mais próximo do tempo que se pretende recriar. Por outro lado, possibilitaria a divulgação das técnicas ancestrais do fabrico de um alimento tradicional, contribuindo para a valorização do nosso Património Cultural.

Funchal Notícias. 19 Junho 2019

Bolo do caco

 

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Numa época em que se comemoram os 600 anos do Porto Santo e da Madeira, há uma tendência para se falar mais, e também escrever, nos media sobre a História destas ilhas. Surgem ainda indivíduos ou organizações, que se socorrem da História para a realização de projectos artísticos e espectáculos. Tudo isto deveria, em princípio, ser pedagogicamente vantajoso para a cidadania, em especial, para a promoção da identidade cultural e da educação com base na consciência do passado histórico.

Infelizmente, por falta de conhecimentos ou de uma assessoria científica, algumas boas ideias degeneram em falsificações da História.

É certo que, em muitos assuntos, a História não apresenta certezas. Contudo, há matérias onde a especulação não tem lugar ou, pelo menos, está limitada. A historiografia vai, nalguns campos, cimentando conclusões, consensualmente tidas como certas.

O grande equívoco é muitos se armarem em historiadores sem a necessária formação ou sem nunca se terem dedicado ao estudo e à investigação da História. Ainda no passado mês de Fevereiro, ouvi uma senhora deputada afirmar, na RTP-Madeira, que fulano tal era, sem dúvida, uma «individualidade de reconhecido mérito nacional e internacional, no âmbito histórico ou cultural» por ter sido vice-presidente de um determinado órgão de soberania. Como se a carreira política conferisse a alguém tais competências e méritos! Assim sendo, estamos conversados. Adiante.

A História não se assemelha a um terreno baldio, onde alguns se dão ao desplante de entrar e defecar. Entre amigos e conhecidos, é mais ou menos aceitável todos opinarem sobre tudo. Já publicamente, a postura deveria ser diferente: que cada um fale do que sabe.

Seria fastidioso enumerar aqui os muitos lapsos destas comemorações dos 600 anos, mas, para memória futura e para que não se diga que falo sem fundamento, ficam aqui alguns.

«Na rosa dos ventos: Machico à proa». Escultura de Luís Paixão. 2015. Machico – Madeira. Foto: © Nelson Veríssimo.

No dia 2 de Julho de 2015, foi inaugurada uma escultura da autoria de Luís Paixão, promovida pela Câmara Municipal e executada com o apoio de uma cadeia de supermercados, como forma de assinalar o desembarque dos portugueses na baía de Machico. A escultura pretende representar um navegador a colocar um padrão na terra descoberta e intitula-se «Na rosa dos ventos: Machico à proa».

O escultor optou por uma representação realista, com nítida influência da gravura do «Padrão erguido pelos portugueses na foz do rio Zaire», publicada in Quadros da História de Portugal, obra coordenada por Chagas Franco e João Soares, com ilustrações de Roque Gameiro e Alberto de Sousa (Lisboa, 1917).

Não cabe aqui analisar a incrível posição anatómica do navegador, nem sequer as suas estranhas feições ou tão-pouco o traço das mãos. Atente-se, porém, no padrão. Teria sido firmado um padrão em Machico por Tristão ou algum dos seus companheiros de viagem? Elegendo um modelo realista, teria o escultor procurado informação sobre esse pormenor, com elevado relevo na sua obra? O texto, que acompanha a ilustração de Roque Gameiro – fonte provável da sua inspiração –, poderia fornecer-lhe imprescindível esclarecimento.

Na verdade, o assentamento de padrões em pedra, como forma de assinalar a prioridade dos descobrimentos portugueses, iniciou-se com Diogo Cão, na margem sul da foz do Zaire (Padrão de São Jorge), em 1482, por ordem do rei D. João II.

Só na imaginação de Luís Paixão há lugar para um padrão em Machico. Para a História, é uma fantasia do escultor que, no contexto da obra em apreço, constitui um anacronismo. Quando Zarco e Tristão ali desembarcaram, não transportavam padrões.

O Governo Regional criou «uma estrutura temporária designada por Estrutura de Missão para as Comemorações dos 600 anos do descobrimento da Madeira e Porto Santo, com o desígnio de planificar, organizar e monitorizar os eventos comemorativos dos 600 anos do descobrimento da Madeira e Porto Santo» (Resolução n.º 243/2017, JORAM, n.º 71, I Série, de 18 de Abril de 2017).

Esta deliberação governamental é uma malformação congénita. Se quem a redigiu e subscreveu soubesse um pouco de História teria escrito Estrutura de Missão para as Comemorações dos 600 anos do descobrimento do Porto Santo e da Madeira.

No dia de Todos os Santos do ano passado, houve um arraial temporão no Porto Santo à conta do sexto centenário do descobrimento da ilha. Para a festa de Todos os Santos de 2018, a Comissão Executiva das Comemorações tomou como verdadeira uma afirmação absolutamente errada de Cadamosto. Este navegador veneziano escreveu, em 1455, que o dito descobrimento ocorreu no dia 1 de Novembro de 1428 e que, por ser dia de Todos os Santos, chamaram a esta ilha Porto Santo. Ora o topónimo Porto Santo existe, pelo menos, desde os anos 70 do século XIV, isto é cerca de 50 anos antes da chegada dos portugueses. Por outro lado, em 1420 já Bartolomeu Perestrelo tinha iniciado o povoamento da ilha. Ademais, se a dita Comissão valoriza tanto as afirmações de Cadamosto, então deveria celebrar os 600 anos no 1.º de Novembro de 2028 e não em 2018. Incongruências de quem não tem respeito pela História! Para cúmulo desta falta de bom senso, impuseram a  esta ilha uma velha estátua do Infante sobre uma palete, a poluir a alameda com bafos saudosistas de representações artísticas colonialistas.

Espero que, no corrente ano, os porto-santenses celebrem, tranquilamente, o dia de Todos os Santos ou do Pão por Deus e, para sempre, nesta data, se esqueçam do descobrimento, em nome da sua História e, em especial, da sua dignidade. Errar é humano, mas perseverar no erro é diabólico – bem se aplica neste caso o conhecido adágio, que radica num sermão de Santo Agostinho.

Em comemorações de acontecimentos ou factos importantes surgem sempre recriações de História ao vivo. A dramatização de um acontecimento histórico deve ser uma encenação com a proximidade possível da realidade passada. Impõe-se, por conseguinte, trabalho de investigação e precisão histórica. No entanto, dois projectos desta natureza, realizados no âmbito dos 600 anos, revelaram falta de rigor científico sobre os acontecimentos representados.

Festival Colombo. Porto Santo, 2018.

No Festival Colombo do Porto Santo do ano passado, uma recriação histórica, executada pela Viv’Arte – Laboratório Nacional de Recriação Histórica e adjudicada pela Secretaria Regional do Turismo e Cultura por 68 000 euros, inventou o casamento de Cristóvão Colombo e Filipa Moniz na praia, celebrado por um bispo, e fez desfilar freiras pelas ruas da cidade. Duas, entre outras, cenas anacrónicas e ridículas. No século XV, a Igreja não permitia casamentos fora de igrejas, capelas ou oratórios. Quando Colombo casou, ainda não tinha sido criada a diocese do Funchal. As freiras viviam em clausura. No Porto Santo não havia conventos! Por fim, mais provável é Colombo ter casado em Lisboa.

Festival Colombo. Porto Santo, 2018.

Recentemente, na Festa da Flor surgiu a baía dos bomboteiros. A ideia foi interessante e o cenário bem conseguido, no contexto do evento. Contudo, a representação dramática destoava. O guião não se adequava à realidade representada. Um bomboteiro não falava como um «vilão». Os rapazes da mergulhança nada tinham a ver com aqueles «actores». Faltou rigor. Bastava ler alguns estudos sobre esta actividade e o texto seria outro. Para começar, aconselharia a leitura de Elisabeth Pestana, Subsídios para o estudo da linguagem dos bamboteiros (Funchal).

«Baía dos bomboteiros». Funchal, Maio 2019. Foto: Joana Sousa, JM, 05-05-2019.

Fico-me por aqui, não por se terem esgotado os exemplos, mas porque o texto vai já longo.

Resta-me a convicção de que estas e outras trapalhadas retiram crédito às comemorações, que deveriam ser encaradas com seriedade e respeito pela História. Também, neste âmbito, se pode aplicar aquele provérbio romano com mais de 2000 anos: À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta.

 

Funchal Notícias. 22 Maio 2019

 

Nota:

A Câmara Municipal de Machico pagou 18 670,00 € pela concepção da escultura «Na rosa dos ventos: Machico à proa», conforme contrato, por ajuste directo, celebrado em 30 de Abril de 2015.

https://www.racius.com/concecao-da-escultura-na-rosa-dos-ventos-machico-a-proa/

 

Respeitar a História

 

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O frio e a chuva não me faziam desistir. De vez em quando o vento soprava forte, e eu desejava mais intensidade. Que mistério esconderia o pendão, atirado para o telhado por forte rajada?

A cor sugeria-me panos, que escondem altares no tempo da Quaresma. Mas era casa do Governo, e ninguém tinha notícias da realização de uma procissão dos Passos.

Porto Santo. Foto: © Nelson Veríssimo, Abril 2019.

 

Recordei-me da minha escola primária, do Senhor Vento e do Senhor Sol, que, numa disputa, pretendiam saber qual era o mais forte. Tudo fizeram para que o viajante despisse o casaco. História que ouvi na Escola da Carreira e me fascinou.

Em dia determinado e horário certo, que a minha classe ansiava, havia o programa da Rádio Escolar, transmitido pela Emissora Nacional. Na parede da sala, debaixo do crucifixo e entre as molduras empoeiradas com as fotografias do Presidente da República e do Presidente do Conselho, um altifalante, depois de uns ruídos esquisitos, tornava audível o programa elaborado pela Direcção-Geral do Ensino Primário. O silêncio imperava sob o olhar vigilante do professor. Por mais de uma vez, ouvi a história e a moral do Senhor Vento e do Senhor Sol, que depois li num livro emprestado pela Biblioteca Calouste Gulbenkian, instalada no edifício da Câmara Municipal do Funchal.

Nesse conto, vencera o sol, mas agora o que mais queria era vento, para que o pendão se desapegasse das telhas de canudo e voltasse a roçar de mansinho a fachada.

Não largava a máquina fotográfica. O momento mágico tardava. Impacientava-me.

Invocavam-se divindades e santos para acalmar o vento. Eu só o queria despertar naquele beiral. Já não havia deuses e os santos meus conhecidos aplacavam vendavais. Ulisses teve sorte – pensei – quando Éolo lhe presenteou com um saco de couro, «em que atou os caminhos dos ventos turbulentos». Mas logo me lembrei que os seus companheiros abriram o saco, «e para fora se precipitaram todos os ventos».

Porto Santo. Foto: © Nelson Veríssimo, Abril 2019.

Quando recordava a fabulosa Odisseia – estranha coincidência –, uma rajada impetuosa arrancou do telhado o pendão. Podia agora ler: 600 / ANOS / MADEIRA / PORTO SANTO.

Quis o vento mostrar-me mais aquela fanfarronice duma Comissão, que não conhece, não respeita, nem honra a História do Porto Santo, com o apoio da Secretaria Regional do Turismo e Cultura.

De novo, se colocou diante de mim aquela Resolução do Conselho do Governo Regional, a n.º 243/2017, publicada no JORAM, n.º 71, I Série, de 18 abril de 2017, que criou «uma estrutura temporária designada por Estrutura de Missão para as Comemorações dos 600 anos do descobrimento da Madeira e Porto Santo, com o desígnio de planificar, organizar e monitorizar os eventos comemorativos dos 600 anos do descobrimento da Madeira e Porto Santo».

Sempre vi essa deliberação governamental como malformação congénita. Se quem a redigiu e subscreveu soubesse um pouco de História teria escrito Estrutura de Missão para as Comemorações dos 600 anos do descobrimento do Porto Santo e da Madeira. Bem, concluí então, nasceu torto.

Presumo que resultou assim, por falta de conhecimentos sobre rotas marítimas e História de Portugal, sobretudo do arquipélago da Madeira. Ou teria aquele diploma sido infestado pela velha e rançosa sobranceria elitista da Madeira em relação à ilha vizinha?

João Gonçalves Zarco e Tristão desembarcaram primeiro no Porto Santo. Contudo, a Comissão Executiva da Estrutura de Missão continua a inverter a ordem dos acontecimentos no pendão que o vento fincou, por algum tempo, no telhado da casa de sobrado.

Como me dizia um bem-humorado porto-santense: «a gente tem de virar o pano de pernas para o ar, para Porto Santo ficar por cima.» Que seja!

Surgiu depois o vento forte e aprisionou de novo o pendão. Incorporando o habitual desdém porto-santense por atrevimentos infelizes, metamorfoseou-o, com sabedoria, no protesto da primeira ilha que os portugueses descobriram e povoaram, distinção histórica que o ignominioso pano não reconhecia.

Funchal Notícias. 10 Abril 2019

https://funchalnoticias.net/2019/04/10/a-sabedoria-do-vento/

 

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Andam alguns madeirenses indignados com as comemorações oficiais do «Dia de Portugal» de 2019, em Portalegre e Cabo Verde. Consideram atitude de menosprezo para com a Região, porquanto, no seu entender, este é o ano do Sexto Centenário do Descobrimento da ilha e, por tal, deveriam acontecer na Madeira.

Tendo chegado a Belém esses clamores, apressou-se o Senhor Presidente da República a comunicar, no passado dia 7, que as cerimónias do «Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas» se realizarão em 2020 na Região Autónoma da Madeira. Justificou não ter sido no presente ano, pois decidira «manter a orientação, anterior ao seu mandato, de não realizar tais comemorações numa Região Autónoma em ano de eleições regionais.»

O anúncio prematuro e a justificação da Presidência da República calaram os ânimos mais exaltados. Mas antes desta notícia, já eu admitia compreender que, neste ano, o Senhor Presidente da República não escolhesse a Madeira para a celebração da Portugalidade, pelas opções e circunstâncias regionais.

No ano passado, convidaram o Senhor Presidente da República para participar nas comemorações do Sexto Centenário do Descobrimento do Porto Santo, em 1 de Novembro. O Presidente aceitou de boa fé, mas foi enganado quanto à cronologia, pois, como já demonstrei, a data não tem fundamento histórico nem estatuto de tradição. Ora, dando-se conta do logro, achavam que o Senhor Presidente da República estaria disponível para, no ano seguinte, celebrar, na mesma linha, a efeméride do descobrimento da Madeira?

A falsa efeméride festejada no Porto Santo foi um fracasso como comemoração de um acontecimento histórico, mas a cobertura dos media possibilitou inegável propaganda governamental. A perpetuar a despropositada celebração, deixaram uma réplica da estátua do «Senhor da Ilha», concebida, nos anos 30 do século passado, para exaltar o colonialismo, uma espécie de prenda artística aos porto-santenses, mas fora de moda, que não se usa mais, a lembrar velhos tempos, quando para lá se levava o que já não se utilizava na Madeira. Então crêem que o Senhor Presidente gostou desta comemoração infeliz e teria gosto em repeti-la no ano seguinte?

Neste ano, tudo está envolvido pela febre partidária. As comemorações dos 600 anos estiveram, desde o início, na mira eleitoral e não se têm desviado do alvo. Não fosse 2019 ano de importantes eleições e, provavelmente, os mentores da celebração teriam adoptado a perspectiva da historiografia actual e não a do século XIX, como fizeram, ao teimarem no pretenso descobrimento do Porto Santo em 1418 e o da Madeira no ano seguinte, tudo para que os 600 anos coincidissem com o XII Governo Regional. Julgam que seria correcto o Senhor Presidente da República apadrinhar festejos com marcas de uma força partidária nas vésperas de actos eleitorais?

Por tudo isto, compreendemos muito bem a posição do Senhor Presidente da República. Esta ajuizada decisão constitui oportunidade única para a Região, em 2020, celebrar, condignamente, os 600 anos do povoamento do arquipélago da Madeira (1420-2020).

Funchal Notícias. 13 Fevereiro 2019

https://funchalnoticias.net/2019/02/13/pois-eu-ate-compreendo/

 

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Do livro do historiador Alberto Vieira, O (re)descobrimento / (re)conhecimento do Porto Santo e da Madeira: em torno da História, de alguns conceitos e imprecisões, foram impressos 300 exemplares de uma edição modestíssima, em papel de má qualidade e todas as ilustrações a preto e branco. O folheto 600 anos: Madeira, Porto Santo, distribuído com a edição de 30-11-2018 do Diário de Notícas, do Funchal, teve uma tiragem de 55 000, a cores e em bom papel.

O primeiro é um livro de História. O segundo é um folheto de propaganda do PSD, com quatro páginas de umas notas históricas inqualificáveis, três entrevistas bem cozinhadas (Miguel Albuquerque, Paula Cabaço e Guilherme Silva) e uma resenha de eventos realizados.

O livro ficará na estante, será consultado e terá sempre utilidade. O folheto da propaganda mal disfarçada, fatalmente, acabará no lixo ou na fogueira. Assim se gasta o dinheiro público. O DN ganha o seu, e sobre esta empresa só podemos dizer: bom proveito. Quanto à Comissão Executiva dos 600 anos, lamentamos a instrumentalização partidária de uma efeméride histórica.

VIEIRA, Alberto – O (re)descobrimento / (re)conhecimento do Porto Santo e da Madeira: em torno da História, de alguns conceitos e imprecisões. Funchal: Centro de Estudos de História do Atlântico, 2018.

600 anos: Madeira, Porto Santo. Folheto distribuído com a edição do Diário de Notícias, Funchal, 30-11-2018.

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Porto Santo, 1 de Novembro de 2018

Infante – Que vindes aqui fazer com tão grande atrevimento?

1.ª voz – O príncipe fala?

2.ª voz – Encomendei com voz…

3.ª voz – E Lisboa não vai querer pagar, com certeza!

5.ª voz – Porto Santo merece, Senhor Professor Marcelo Caetano.

4.ª voz – Já o avisei de que agora o Professor é outro.

Infante – Por todas as terras, vejo o meu nome em praças e ruas. Meu retrato desejais e meu corpo também pretendeis. Até me assentaram na longínqua Tanegashima, ilha que nem em sonhos vislumbrei e onde os navegadores deste Reino somente chegaram mais de 80 anos depois de entregar a minha alma a Deus. Bem sabeis, mordomo-mor, que de mim licença nunca alcançastes para tanto enfeitamento e folgança.

2.ª voz – Senhor, por recompensamento do vosso feito, quis que aqui fôsseis sempre lembrado, e, para maior glória, na presença deste meu companheiro de jornada.

1.ª voz – A esta vossa ilha vim, excelente príncipe e poderoso Senhor.

5.ª voz – Porto Santo merece, Senhor Professor Marcelo Caetano.

4.ª voz – Homem, lembre-se de que agora o Professor é outro.

Infante – Vós não ousais pensar que me maravilho ataviado de bronze, com tão desmesurada altura e assente neste acanhado plinto. Sempre cuidei de me resguardar de pintores e escultores, quer como governador da Ordem de Cristo, duque de Viseu ou Senhor da Covilhã.

2.ª voz – Ainda que assim fosse a vontade de Vossa Alteza, é assaz conhecido o vosso rosto. Com esse, um escultor da Madeira deu vulto à vossa pessoa.

Infante – Há quem me reveja num daqueles painéis de Nuno Gonçalves. Outros me identificam com uma ilustração da Crónica de Guiné. Mas nunca usei o chapeirão borgonhês com que me cobriram a cabeça. Não fosse a destruição do meu túmulo no Mosteiro da Batalha pelos malvados invasores franceses, e teriam conhecido a minha fisionomia pelos traços da estátua jacente.

2.ª voz – Senhor, quis tão-só proceder como em 1960, quando por todo o Portugal se assinalou, de maneira exaltada, o V Centenário da vossa morte. Era eu muito jovem e fiquei arrebatado por esses momentos gloriosos de patriotismo, dos quais jamais me esqueci.

Infante – Esse é o tempo do passado. Mas fostes mais além. Buscastes o tempo em que ainda não eras nascido. Desenterrastes o cinzel de Francisco Franco que me petrificou para uma exposição internacional em Vincennes, nesse distante ano de 1931. Celebrava-se o colonialismo, mas havia já vozes de protesto contra a política ultramarina imperial. Nos anos 80, Paris não me quis, e deslocaram a minha estátua para Nantes. Colocaram-me numa praça onde ninguém me conhece. Aos meus pés, inscreveram o cognome de O Navegador. Henri le Navigateur, porque chegaram a me confundir com um Fernando de Magalhães. Nunca me conformei com esta roupagem da imaginária oficial da ditadura, nem com aquela alcunha. Até às mãos do Criador, fui sempre um cruzado. Com 64 anos ainda combati muçulmanos em Alcácer Ceguer.

1.ª voz – Vossa glória e fama, Senhor, vai além do Norte de África. Depois do descerco de Ceuta, todos os anos, enviastes navios em busca de novas terras.

2.ª voz – E assim descobristes o Porto Santo e, um ano depois, a Madeira.

5.ª voz – O nosso Porto Santo, Senhor Professor…

4.ª voz, num aparte segredado – Cale-se.

Infante – Sempre no passado, mordomo-mor. Não sabeis que procurei terras a sul das águas conhecidas? Destas ilhas já havia manifesta certidão. Mandei-as povoar, antes que os castelhanos a tomassem. No Atlântico, meu grande desejo era passar o Cabo do Bojador e alcançar a terra de Guiné, para acrescentar a santa fé de Nosso Senhor Jesus Cristo e trazer ao Reino muitas mercadorias e fazer bom trato.

2.ª voz – Bem sabeis, Vossa Alteza, que fostes o Senhor deste arquipélago…

Infante – Da Madeira, veio-me bom proveito.

3.ª voz, num aparte – Essas contas estarão já feitas?

Infante – Doei o Porto Santo a Bartolomeu Perestrelo, mas nesta ilha o capitão não pôde tirar grande proveito da lavra, pela praga dos coelhos e a escassez de água. Arrecadou pão nalguns anos, criou gado e colheu sangue de dragão.

2.ª voz – Agora, Senhor, ficarás sempre na memória desta ilha e do seu povo.

Infante – Os moradores deste lugar serão sempre dignos de lembrança. Mas não me apraz trajar de bronze no meio destas palmeiras. Nem a mim nem a Deus trouxestes benefícios com esta obra. Bem sabeis que sempre fiz mercês aos que bem me serviam. Nunca deixei de recompensar os serviços que me prestaram com coroas e dobras de ouro, algumas vezes contraindo dívidas, que paguei com terras dos meus senhorios. Mas a vós não farei acrescentamento com galardão de natureza alguma.

2.ª voz – Senhor! Sabeis o grande trabalho que tenho levado a efeito. Nunca me pareceu que de vós haveria de receber ouro, pois outros rendimentos diligencio. Bem conheceis como desejo ser feito cavaleiro, e, se isso for da vossa vontade, sempre com a minha gratidão e lealdade contareis. Por meus merecimentos e bondade, fazei-me esse acrescentamento.

Infante – Não me apraz que me houvésseis requerido honra tão avantajada, depois de me embalsamares neste bronze. Só ao povo desta ilha é devido merecido tributo, no tempo certo. Fostes aos confins para me desinquietares e tomastes a dianteira no folguedo por artifícios do pôr-do-sol sem ao calendário atenderes. Uma máxima vos darei, que vos pode trazer grande benefício. Lembrai-vos do dito de Túlio, que dei a conhecer ao cronista Zurara, quando escreveu os meus feitos: não abasta ao homem fazer boa coisa, mas fazê-la bem.

5.ª voz – Falastes bem, Senhor Infante.

E todos se retiraram com a cabeça baixa e o semblante carregado. O Infante, porém, continuava a pensar no futuro daquela ilha, do seu país e até da Humanidade.

Funchal Notícias. 6 Novembro 2018

https://funchalnoticias.net/2018/11/06/do-agastamento-do-senhor-infante-na-ilha-do-porto-santo/

 

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