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Posts Tagged ‘Porto do Funchal’

VERÍSSIMO, Nelson – Mulheres bomboteiras. In SANTOS, Thierry Proença dos, coord. – De uma voz a outra: Travessias. Livro de homenagem a João David Pinto Correia. Lisboa: Edições Colibri, 2020. ISBN 978-989-689-944-8. p. 291-307.

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No contexto das guerras napoleónicas, desembarcaram, por duas vezes, no Funchal, forças militares britânicas, a fim de tomarem a ilha da Madeira. A primeira ocupação ocorreu de Julho de 1801 a Janeiro seguinte. A segunda iniciou-se a 24 de Dezembro de 1807 e terminou no princípio de Outubro de 1814. Nos primeiros três meses da segunda ocupação, a Madeira ficou sob o domínio britânico. Jorge III, rei da Grã-Bretanha e da Irlanda, era então soberano dos madeirenses e a bandeira britânica achava-se içada em todas as fortalezas.

 

A aluvião de 9 Outubro de 1803 foi uma grande calamidade para a cidade. Para além de mais de duas centenas de mortos, numerosos edifícios arruinados, incalculáveis bens levados pelas torrentes, pontes e ruas destruídas provocaram grandes problemas aos funchalenses.

 

Na sequência desta catástrofe, procedeu-se ao encanamento das três ribeiras do Funchal, obra fundamental para a cidade, há muito pretendida, mas executada pela determinação do Brigadeiro Reynaldo Oudinot, enviado para a ilha, por Decreto de 17 de Dezembro de 1803, com a missão de dirigir os trabalhos de recuperação do tecido urbano e de prevenir as habituais inundações.

 

Em 1820, triunfou a Revolução Liberal em Portugal. Os funchalenses saíram à rua, para manifestar a sua adesão ao liberalismo, somente a 28 de Janeiro do ano seguinte.

 

A liberdade proporcionou a publicação do primeiro jornal madeirense, O Patriota Funchalense, importante veículo de expressão e de formação da opinião pública, entre 1821 e 1823. A imprensa revelou-se essencial para o desenvolvimento de uma consciência madeirense que, ao longo do séc. XIX, contestou fortemente o Poder Central, pouco motivado para o progresso do arquipélago e quase sempre surdo às principais reivindicações insulares. A Pátria era, frequentemente, alcunhada de «madrasta». O insistente empenho, na resolução dos principais problemas dos ilhéus, originará o movimento autonomista, entre nós, fruto de reduzida reflexão teórica, mas eivado de forte sentido pragmático. 

 

Após a implantação definitiva do liberalismo em 1834, assistiu-se à promoção da instrução pública elementar, com a criação de escolas municipais e do Estado, e ao desenvolvimento de estudos mais avançados, através da Escola Médico-Cirúrgica do Funchal (1837), do Liceu (1837) e da Escola Industrial (1889). Surgiu também o ensino público para o sexo feminino. Em 1855, a Câmara Municipal do Funchal tinha a seu cargo onze escolas de meninas, havendo ainda, para o mesmo género, um outro estabelecimento público na cidade, a expensas do Estado.

 

A economia madeirense, por meados do século, enfrentava sérias dificuldades. Verificou-se, na década de vinte, uma contracção do mercado consumidor do vinho da Madeira. Mais tarde, as pragas do oídio (1852) e da filoxera (1872) afectaram gravemente a economia vitivinícola, gerando, por conseguinte, considerável aumento da emigração.  

 

Com o fim de activar a economia, reintroduziu-se a cana sacarina, para produção de açúcar e destilação de aguardente, aplicando-se novas tecnologias nos engenhos. A Fabrica do Torreão, fundada em 1856 por William Hinton, constitui o exemplo mais representativo de um estabelecimento industrial no Funchal, tendo sobrevivido até 1986.

 

Inovação, igualmente associada à Revolução Industrial, foi o Caminho-de-Ferro do Monte, inaugurado a 16 de Julho de 1893 (1.º troço: Pombal – Levada de St.ª Luzia) e desactivado em 1943. O «comboio do Monte» revelou-se, durante muitos anos, atracção turística útil e símbolo do progresso nos transportes da cidade.

 

Em Oitocentos, a Madeira tornou-se reputada estação sanatorial, apesar de não possuir clima favorável para doenças pulmonares. Ao Funchal, acorreram numerosos forasteiros, buscando a almejada saúde, belezas naturais da «Flor do Oceano» ou novas espécies para a ciência. 


Para servir os navios, que faziam escala no porto do Funchal, e promover o turismo e o comércio, iniciou-se, em 1885, a ligação entre o ilhéu de N.ª Sr.ª da Conceição e o de S. José, conhecido também por ilhéu da Pontinha, porque, desde a segunda metade do século XVIII, estava unido a terra através de uma muralha, formando um porto de abrigo. Devido a estragos causados por temporais e avarias, continuaram obras de reparação e ampliação do molhe da Pontinha até 1897.
 


Na década de quarenta do século XIX, graves episódios de intolerância mancharam a reputação do Funchal cosmopolita e hospitaleiro, onde, habitualmente, conviviam, de forma pacífica, cidadãos de diferentes confissões religiosas. As autoridades e a Igreja Católica opuseram-se à acção do médico protestante escocês, Robert Reid Kalley (1809-1888), e hostilizaram os seus seguidores, obrigando-os a sair da ilha.
 


Kalley desenvolvera meritória acção filantrópica e pedagógica, tendo, inclusivamente, fundado várias escolas de primeiras letras. Todavia, as suas preocupações com a alfabetização e o bem-estar das populações, associadas ao incentivo da leitura da Bíblia e às pregações sobre matérias religiosas, enquadravam-se num projecto, não consentido, de difusão e implantação da fé protestante nesta ilha.
 


Finalmente, é de mencionar que, na década de oitenta, se construiu o Teatro Municipal, primeiramente denominado de D. Maria Pia, e hoje conhecido como de Baltasar Dias, em homenagem ao dramaturgo madeirense do século XVI.
 

 

Diário de Notícias, Funchal, 3 de Agosto de 2008 

(Reproduz-se aqui a versão integral do texto; a enviada para o DN foi reduzida por exceder o número recomendado de caracteres)
 
 
 
 
 
 

 

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