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Posts Tagged ‘Machico’

A Assembleia Municipal de Machico iniciou, no passado dia 2, um debate público acerca do «dia do concelho», procurando ouvir a população sobre a continuidade ou a alteração da respectiva data.

Presentemente, esta comemoração ocorre no dia 9 de Outubro, coincidindo com a Festa do Senhor dos Milagres. Não foi feliz opção, creio que feita em 1977, e enquadra-se dentro do espírito do Decreto 38 596, de 4 de Janeiro de 1952, que preconizava o feriado municipal no dia de uma festa tradicional e característica do concelho.

A ideia de alteração da efeméride, escolhida para assinalar o «dia do concelho», vem sendo acalentada por vários edis e deputados municipais, pelo menos desde os finais dos anos oitenta do século passado.

A memória da fatídica aluvião de 1803, através da veneração da escultura do Cristo, arrastada pela torrente para o mar e, anos depois, das águas retornada à sua capela, pela determinação da Misericórdia de Machico, quando na Sé lhe queriam dar guarida, pela sua própria natureza – «festa de tristeza e de sentimento», diz o povo –, impede a Câmara de assinalar o «dia do concelho» (ou a «semana do concelho») com um amplo programa festivo, como é comum noutros municípios.

Fachos. Procissão do Senhor dos Milagres, Machico. Foto: http://www.jornaldamadeira.com/2017/10/08/machico-celebra-festa-do-senhor-dos-milagres/

Nove de Outubro é, popularmente, o «dia do Senhor dos Milagres». A tradição e a devoção, o luto e a esperança renovam-se, em cada ano, na procissão da véspera e no pagamento das promessas. Machico converte-se em lugar de peregrinação com madeirenses de toda a ilha e também emigrantes, que, por fé ou outro qualquer motivo, que não importa indagar, se deslocam para a Festa do Senhor dos Milagres.

No dia 9 de Outubro, só as autoridades municipais e os representantes do poder regional ou central celebram o dia do concelho de Machico. A sessão é solene, mas outra solenidade amortalha o «dia do concelho».

Compreende-se que o «Dia do Senhor dos Milagres» continue a ser feriado municipal. Mas mostra-se pertinente arranjar outra data para assinalar o «dia do concelho». Não seria situação inédita. Em Santa Cruz, por exemplo, o feriado municipal não coincide com o «dia do concelho».

Não somente por razões laicas, o «dia do concelho» deve ser alterado. Há também motivos de ordem cultural, económica e turística. O «dia do concelho» noutra data permitiria a organização de uma semana festiva e cultural, que se poderia tornar um evento com repercussões económicas semelhantes à Semana Gastronómica.

Qualquer mexida em dias consagrados aos municípios gera controvérsia. Logo o boato invade o território. Já se diz que «querem tirar o Senhor dos Milagres» e outros disparates sub-repticiamente alimentados.

A pretendida mudança não constitui, por certo, prioridade municipal. Mas, sem dúvida, é pertinente e boa para o concelho.

Duas datas significativas parecem merecer algum consenso na almejada alteração: o 8 de Maio, alusivo à carta de doação da capitania de Machico a Tristão, e o 2 de Julho, dia provável do desembarque dos povoadores portugueses, que, sob a autoridade de Zarco e a mando do rei D. João I, ocuparam o arquipélago madeirense.

O 2 de Julho tem vindo a ser comemorado pela Junta de Freguesia desde 1976, nalguns anos com a oposição das forças de direita, e é hoje o «dia da freguesia» de Machico. Associar o «dia do concelho» a esta efeméride poderia ser vantajoso no âmbito das comemorações dos 600 anos do «descobrimento» e povoamento do arquipélago da Madeira.

O 8 de Maio representa a implementação jurídica de uma instituição, que marcou a Expansão Portuguesa e, em Machico, teve a sua primeira formalização oficial. O 8 de Maio de 1440 está, temporalmente, mais próximo da fundação do concelho de Machico, cuja data desconhecemos. Todavia, a capitania simboliza o poder senhorial e não o poder municipal.

A alteração do «dia do concelho» é uma decisão política. Deve, no entanto, referir-se a uma efeméride com particular significado na História local ou ser um dia tradicionalmente assinalado no quotidiano do concelho e reconhecido em todo o seu território. Caberá a Machico decidir.

 

Funchal Notícias. 7 Fevereiro 2018

Machico: o ‘dia do concelho’ em discussão

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O Governo da Madeira, em 4 do corrente, deliberou mandatar a vice-presidência para conduzir o processo do Forte de São João Baptista, em Machico, tendo em vista uma política de preservação e rendibilização do Património Cultural, cuja propriedade pertence a esta Região Autónoma.

Trata-se de mais um passo para solucionar um velho problema, que mancha a paisagem da baía de Machico. Esperamos que, finalmente, seja reabilitado aquele edifício e outra imagem envolva o lugar onde os portugueses desembarcaram pela primeira vez, para darem início ao povoamento da ilha da Madeira.

O Forte de São João Baptista é um edifício classificado do património cultural madeirense pelo Decreto 32 973, de 18 de Agosto de 1943.

Ao contrário de outras localidades, Machico conservou, até aos dias de hoje, duas importantes fortificações construídas no início do século XVIII. De facto, os fortes de São João Baptista e o de Nossa Senhora do Amparo sobreviveram à torrente destruidora das construções militares na ilha. Somente não chegou até nós o Reduto de São Roque, do qual temos algumas notícias desde a segunda metade de Seiscentos.

O Forte de São João Baptista foi mandado edificar pelo governador Duarte Sodré Pereira no ano de 1708, conforme se pode ler na lápide que encima a porta de armas. Contudo, já em 1695 existia o Reduto do Embarcadouro, onde, nesse ano, Manuel Ferreira Maciel iniciou as funções de condestável.

Em 1817, segundo a Descrição de Paulo Dias de Almeida, a artilharia do Forte do Desembarcadouro ou de São João Baptista encontrava-se «toda no chão». Igualmente, a do Forte de Nossa Senhora do Amparo achava-se em mau estado. Não obstante, em 22 de Agosto de 1828, quando a armada miguelista tentou desembarcar em Machico, ou simulou tal, os três fortes da vila abriram fogo sobre os navios que entraram na baía.

O engenheiro António de Azevedo registou, no ano de 1863, que este Forte estava bastante arruinado e abandonado. Depois do ataque miguelista, a sua utilidade militar revelou-se, na verdade, praticamente nula.

No entanto, novas funções caberão ainda ao velho Forte. Assim serviu de hospital, durante a epidemia de cólera dos finais da primeira década do século XX. Mais tarde, abrigou diversas colónias de férias nos meses de Verão, organizadas pelas irmãs da Congregação das Franciscanas Missionárias de Maria, do Convento de Santa Clara do Funchal. A fim de se constituir como Colónia Balnear Infantil, a Junta Geral do Distrito procedeu a várias obras de adaptação, inclusive a construção de um dormitório e de uma capela, desenhada pelo escultor João Tomás Figueira da Silva (1920-2011).

Depois do 25 de Abril, o Centro de Informação Popular de Machico fundou ali um Jardim de Infância, o qual foi encerrado em Janeiro de 1976 pelo brigadeiro Carlos de Azeredo. Refira-se que, em Setembro de 1975, o Forte foi ocupado por refugiados das antigas colónias portuguesas em África. Aqui habitaram diversas famílias, em condições pouco dignas, até ao início deste século.

O realojamento das famílias, que viviam no Forte, abriu caminho à recuperação deste edifício classificado do Património Cultural da Região Autónoma da Madeira

Na verdade, em 2002 o Governo Regional aprovou um programa de recuperação, que previa espaços museológicos e de restauração. Contudo, não foi concretizado.

Em 2005, surgiu um novo projecto, com a assinatura do arquitecto Victor Mestre, para uma unidade hoteleira com quarenta quartos, que seria executado pela empresa Mare Nostrum. O prazo de concessão do Forte de São João Baptista, de acordo com o que foi divulgado por ocasião da assinatura do respectivo contrato com o Governo Regional, era de trinta anos. Mas o projecto não foi concluído, ainda que, em 2008, tivesse sido abordado o processo de transferência da concessão da obra de recuperação e de exploração hoteleira para outra empresa. A construção de uma ETAR na área de protecção do monumento classificado foi, por certo, um óbice ao prosseguimento do investimento no Forte. A crise financeira justificou o seu fim e o abandono nos últimos anos.

Não se sabe ainda como será o novo projecto de recuperação do Forte de São João Baptista, mas impõe-se atenção especial a este edifício classificado do Património Cultural da Região Autónoma da Madeira, bem como à sua área de protecção.

A cidade de Machico carece deste espaço para o seu desenvolvimento e progresso. A memória do lugar também exige a preservação da sua História. A reabilitação do forte setecentista seria forma condigna de assinalar os 600 anos do início do povoamento da Madeira, porquanto foi ali que os portugueses desembarcaram, pela primeira vez, nos finais da segunda década do século XV.

 

Funchal Notícias. 17 Janeiro 2018

O Forte de S. João Baptista em Machico

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No passado sábado, foi apresentado, na Câmara Municipal de Machico, o livro O 25 de Abril em Machico: Centro de Informação Popular: 1974-75, de Lino Bernardo Calaça Martins. A edição, em apreço, resultou da dissertação de Mestrado em Estudos Regionais e Locais, defendida pelo autor em Fevereiro de 2016, na Universidade da Madeira.

Com este estudo, resgata-se a memória de uma organização, que foi um pólo dinamizador do 25 de Abril em Machico, e, em particular, a de muitos homens e mulheres, que participaram activamente na Revolução, mas que, até agora, permaneciam no anonimato da História.

O Centro de Informação Popular de Machico (CIPM), fundado dias depois da Revolução, reuniu muitos machiquenses em torno dos ideais de Abril e desenvolveu numerosas iniciativas para satisfação de reivindicações populares, nomeadamente sobre a democratização do poder municipal, a extinção da colonia, a instituição de cooperativas, a alteração de condições laborais e salariais e o alojamento dos refugiados das ex-colónias portuguesas. Desempenhou ainda um papel importante no esclarecimento e politização da população e na promoção de actividades culturais e recreativas. Esta associação revolucionária enfrentou a oposição de autoridades civis, militares e religiosas, bem como de forças políticas moderadas ou conservadoras, num tempo de grandes tensões sociais e conturbadas relações de poder.

As vivências da Revolução de Abril marcaram profundamente os machiquenses e, por certo, influenciaram decisivamente o devir político do município.

Quatro razões fundamentais ditaram a escolha do objecto desta investigação. Em primeiro lugar, o facto de Bernardo Martins pretender trabalhar um tema da sua terra natal, demonstrando, uma vez mais, o afecto ao concelho de Machico, ao qual, anteriormente e por diversas vezes, já havia dedicado largos anos da sua vida nas funções de presidente da Junta de Freguesia, presidente da Câmara Municipal e deputado na Assembleia Legislativa da Madeira.

Seguidamente pesou a experiência de juventude no CIPM, cabendo-lhe assim a responsabilidade de descrever e analisar acontecimentos vividos e que a memória guardava, tarefa facilitada pelo conhecimento privilegiado, mas com responsabilidade acrescida, pois a História procura a objectividade e exige um natural distanciamento dos factos.

A terceira razão associa-se ao corpus documental, sobre o qual assentou a investigação. O autor detém abundante documentação produzida pelo CIPM ou relacionada com esta associação. Conhecia ainda materiais diversos, na posse de particulares, sobre a mesma temática e tinha acesso aos mesmos. Era, pois, chegada a altura de organizar o acervo, em causa, e estudá-lo, valorizando-o, de forma especial, como património arquivístico.

Finalmente, a necessidade de estudar os movimentos populares que eclodiram após a Revolução do 25 de Abril, por todo o país. Na Região Autónoma da Madeira, o CIPM congregou as aspirações populares dos machiquenses, em particular, mas não exclusivamente. Contribuiu de forma decisiva para a difusão dos ideais da Revolução e para a construção da cidadania democrática no concelho de Machico, com repercussões para além da sua existência, como associação popular, e com efeitos na alternância política ao nível autárquico.

Animado com estes propósitos, Bernardo Martins desenvolveu uma aturada investigação, procurando situar e analisar os principais acontecimentos no contexto da Revolução de Abril, sempre tendo em conta as várias forças políticas em confronto. O rigor e a objectividade implicaram o confronto da documentação do CIPM com outras fontes, para que o princípio do contraditório permitisse justificada interpretação dos factos históricos.

A história do 25 de Abril na Madeira ainda está por fazer. É investigação que se impõe aos historiadores. Sem o crivo da História, o que se tem editado sobre o assunto, sempre a ter em devida conta, reduz-se ao género reportagem ou memórias e, por vezes, com manifesta parcialidade ou descarado branqueamento.

Fica agora, em livro, relevante contributo para a compreensão da Revolução dos Cravos na Madeira, sobretudo no domínio dos movimentos populares, com foco no concelho de Machico, em boa hora, editado pela respectiva Câmara Municipal, tendo design gráfico de Ricardo Caldeira e fotografias de Manuel Nicolau e da imprensa da época.

Martins, Lino Bernardo Calaça – O 25 de Abril em Machico: Centro de Informação Popular: 1974-75. Machico: Câmara Municipal, 2017. ISBN 978-989-97206-1-9.

 

Funchal Notícias. 3 Maio 2017

O 25 de Abril em Machico

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Prémio_Literário_Machico

A 30 de Novembro, a Junta de Freguesia de Machico anunciou os vencedores do V Concurso Literário Francisco Álvares de Nóbrega – Camões Pequeno, este ano na modalidade de Poesia.

Instituído em 2001 pela Câmara Municipal de Machico, o concurso literário teve continuidade através da Junta de Freguesia.

A atribuição de um prémio literário, na sequência de criterioso processo de selecção, motiva a escrita. Pela via do reconhecimento público do mérito e consequente edição, alguns autores vêm reconhecida a sua obra, outros saem do anonimato ou repetem experiências bem sucedidas e, mais raramente, há quem veja recompensada uma primeira tentativa de criação literária, sugerida pela publicitação de um concurso.

Na verdade, os concursos literários fomentam a leitura e a escrita, prestigiando as entidades que os promovem. Trata-se de iniciativas em prol do bem comum que, mantidas com regularidade e isenção, servem para o enriquecimento cultural de determinada comunidade, mas com reflexos positivos para além dos seus limites administrativos.

Prova disso é o interesse suscitado por este concurso fora da Madeira. Muitos dos premiados das últimas edições não residem nem são naturais desta Região. Corresponderam porém, por razões diversas, desde afinidades familiares ou afectivas ao simples aliciamento pelo prémio, à feliz iniciativa da Junta de Freguesia de Machico, que associa ao certame o nome do poeta Francisco Álvares de Nóbrega (1773-1806), natural desta freguesia, e cuja memória é também lembrada no aniversário do seu nascimento.

Diário de Notícias, Funchal, 2 de Dezembro de 2010

 

 

 

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