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Posts Tagged ‘Levadas’

A casa emoldurada por um terreno agrícola, latadas de vinha, viçosas bananeiras, canas-de-açúcar ondeando na vizinhança, mantas de semilhas e outras hortaliças, árvores de fruto, estimadas mas quase sempre não de propósito ali plantadas, marcaram a paisagem dos meus primeiros anos. O cenário não desapareceu por completo, mas há muito tempo que dele me separei.

Nesse mundo semi-rural, porque bem próximo do centro da cidade, então a única da ilha, a água de rega era uma riqueza. Nada existia sem ela.

Dia de rega era dia de agitação. Preparavam-se os tornadouros, reforçava-se aqui ou ali os camalhões para o rego não rebentar. Vigiava-se o tempo, a levada, o levadeiro e o vizinho com a responsabilidade de entregar a água.

Na véspera ou no dia da rega, acertava-se o relógio pelo sinal horário da estação de rádio. Se fosse nocturna, importava preparar as lanternas ou ver se o olho de boi tinha as pilhas carregadas. Percorria-se a levada para verificar se não havia uma artimanha para furtar água, uma pedra estrategicamente colocada, uma tampa levantada ou uma laje do mainel deslocada. Falava-se com o levadeiro e perguntava-se-lhe as horas para confirmar se tinha o relógio acertado. Então o levadeiro colocava a foice no ombro e, teatralmente, retirava o relógio do bolso, deixando ver a grossa corrente de prata presa numa das alhetas da cintura das calças. Tudo teria de estar a postos para pegar na água, quando o regante anterior a entregasse. Mas convinha estar atento, não fosse o vizinho prolongar o tempo a que tinha direito e houvesse necessidade de lhe tapar a água. Por vezes, havia também que ir buscá-la, porque não a tinham trazido ou cansara.

Quando a levada vinha boa, isto é, com um volumoso caudal, a rega era mais rápida e dava para encher o poço.

Havia muitos poços nas fazendas. Até podia ser sinal de alguma abastança. Havia quem não gostasse de regar de noite e então metia a água no poço. Descobertos ou rodeados com rede de galinheiro, armazenavam a água que serviria para a rega diurna, a meio do giro ou quando o calor apertava e as culturas exigiam.

Cuidava-se do poço como do terreiro. Devia ser esvaziado com frequência e lavado, para a água se manter limpa. Havia poços com peixes e rãs. Evitavam os mosquitos, dizia-se. No Verão, alguns transformavam-se em piscinas. Havia quem aprendesse a nadar no poço. E também quem morresse afogado.

Muitas imagens de água andam comigo. Ia para a escola a pé, seguindo a levada da berma do caminho. Água limpa a transbordar e a escorrer no empedrado. Quando passava na margem da Ribeira de São João, via as mãos agitadas das lavadeiras na água cristalina, que por ali corria, esfregando, batendo e enxaguando peças de roupa alheia, que depressa estenderiam sobre os calhaus das redondezas, para corar ou secar.

Com água se fazia sabedoria. Dela se tirava ou dava ensinamento. Havia ditos e provérbios. Águas passadas não movem moinhos. A água o dá, a água o leva. A água corre sempre para o mar. Água mole em pedra dura tanto bate que fura. Águas da Ascensão das palhas fazem pão…

A minha avó sempre lembrava de que não se podia tirar água limpa de um poço sujo, quando pretendia precaver-se de uma troca de palavras inútil. E logo acrescentava, agora personificando: «O melhor é virar-lhe as costas!»

Palavras sábias estas e de aplicação sempre proveitosa. Quer o poço sujo se situe no Caminho dos Pretos ou na Penteada, nunca dali virá água limpa.

 

Funchal Notícias. 14 Junho 2017

 

A água limpa e o poço sujo

 

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Na Madeira, a água para rega foi, desde sempre, um bem intensamente disputado, porque imprescindível para a agricultura, quer quando esta se centrava em produtos ricos para exportação, quer quando se destinava a assegurar a subsistência.

A posse da água ou o direito sobre a sua utilização geraram numerosas contendas, por vezes, com desfechos violentos. Frequentemente, o litígio advinha da apropriação alheia da totalidade ou de parte do tempo de rega, que determinada parcela agrícola possuía ou o seu proprietário julgava deter.

Administrado com mestria e, por norma, integralmente aproveitado, o tempo de rega de cada agricultor deveria ser também cronometrado de forma exemplar.

Na ânsia de regar tudo e bem, o relógio assumiu papel fundamental na distribuição da água pelos heréus.

Quando os relógios não eram de uso vulgarizado nem habitualmente faziam parte dos adereços dos levadeiros, as comissões administrativas de algumas levadas mandaram construir, em sítios estratégicos, singelas torres, quase sempre de planta rectangular, com um relógio, para melhor gerirem a distribuição da água pelos diversos regantes.

Restam poucos exemplares deste tipo de arquitectura civil de equipamento, na Madeira dos nossos dias. Classificado há apenas um, no concelho da Ponta do Sol, com um relógio datado de 1890.

Relógio de água. Canhas, Ponta do Sol – Madeira.

Na verdade, o relógio de água da Levada do Poiso, na freguesia dos Canhas, de finais do século XIX, foi classificado pelo Governo Regional da Madeira em 1998, com a categoria de valor local (Resolução n.º 1596/98, JORAM, I, 10 Dez. 1998, p. 3), e reabilitado no ano seguinte, com a comparticipação de fundos da iniciativa comunitária Leader.

Em 16 de Janeiro deste ano, o Grupo Parlamentar do JPP apresentou, na Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira, um projecto de resolução sobre a salvaguarda dos relógios de água da freguesia do Caniço, no qual recomendava ao Governo Regional que procedesse à sua inventariação, classificação e reabilitação.

Relógio de água. Caniço, Santa Cruz – Madeira. Foto: Élvio Sousa.

Relógio de água. Caniço, Santa Cruz – Madeira. Foto: Élvio Sousa.

Na reunião plenária da Assembleia Legislativa do passado dia 11 de Maio, procedeu-se à votação na generalidade daquele projecto de resolução, tendo o mesmo sido rejeitado com os votos contrários do PSD e do CDS.

O facto de os deputados do PSD e do CDS não se interessarem pela valorização dos relógios de água da freguesia do Caniço, por sinal, exemplares raros do património arquitectónico associado às levadas, num tempo em que a Região desenvolve um processo de candidatura das levadas a património da Humanidade junto da UNESCO, revela bem as suas preocupações quanto ao Património Cultural da RAM e, em particular, do município de Santa Cruz.

Todavia, tal comportamento não deve inibir a Junta de Freguesia do Caniço e a Câmara Municipal de Santa Cruz de iniciarem o procedimento administrativo de classificação dos relógios de água, como imóveis de interesse municipal, por representarem um valor cultural de significado relevante para o concelho.

A classificação constituirá, por certo, um instrumento determinante para a reabilitação dessas modestas construções, fruto da mobilização dos heréus das respectivas levadas, e que, no passado, tanta importância tiveram na divisão e distribuição da água de rega.

 

Funchal Notícias. 24 Maio 2017

Relógios de água

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No passado dia 11, veio a lume Levadas da Madeira: uma antologia literária, organizada por Thierry Proença dos Santos, com fotografias de Francisco Correia e publicada pela Imprensa Académica. Segundo o editor, Luís Eduardo Nicolau, constitui objectivo deste livro «dar a conhecer aos leitores uma relação pouco explorada entre o texto literário e essa obra única da nossa natureza, construída e moldada ao longo dos séculos e cuja marca, na vida dos madeirenses e de todos os que nos visitam, é indelével.»

Thierry Proença dos Santos, professor da Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade da Madeira, tem, nos últimos anos, dedicado a sua investigação à produção literária madeirense e contribuído de forma notável para a sua divulgação no contexto académico nacional e internacional, através de muitos artigos e ensaios em revistas e actas de colóquios, e ainda de alguns livros, dos quais salientamos Comeres e beberes madeirenses em Horácio Bento de Gouveia (2005) e a edição crítica de Canga, (2008). Foi também co-organizador de Crónica madeirense: 1900-2006 (2007) e Cadernos de Santiago 1: colectânea de poesia (2016).

Em Levadas da Madeira: uma antologia literária, Thierry Proença dos Santos reuniu contos, crónicas e poemas, excertos de diários, cartas, romances e reportagens sobre as levadas da nossa ilha.

Surgem assim autores de diferentes épocas e correntes literárias e estéticas. O primeiro texto apresentado é de Gaspar Frutuoso, extraído do Livro Segundo das Saudades da Terra, obra escrita por volta de 1584. Isabella de França, João de Nóbrega Soares, Luzia, Alberto Artur Sarmento, António Ferreira, Assis Esperança, Maria Lamas, Ferreira de Castro, António Marques da Silva, Horácio Bento de Gouveia, João França, Carlos Martins, Alberto Figueira Gomes, Maria do Carmo Rodrigues, Jorge Sumares, António Ribeiro Marques da Silva, Clemente Tavares, Irene Lucília Andrade, Dalila Teles Veras, Fátima Pitta Dionísio, José António Gonçalves, Nelson Veríssimo, Lília Mata, Fernando Bessa são os autores seleccionados. Apenas um viajante estrangeiro foi antologiado. Trata-se do francês Léon Manchon, cujo relato de uma caminhada ao Rabaçal foi traduzido para português, pela primeira vez.

Os discursos sobre as levadas figuram dispostos sob nove temáticas que dão origem a igual número de capítulos. Assim: Os construtores de levadas; Águas passadas, Disputa de água; O silêncio das levadas; O prazer da água (de rega); Ao sabor da levada; A levada que corre dentro de mim; A fonte de lendas, Tornadoiro de poemas. No final, são apresentadas notas bibliográficas dos autores escolhidos, seguindo-se um glossário e um breve posfácio com o enquadramento histórico das levadas madeirenses.

As fotografias de Francisco Correia, que acompanham os textos, não assumem o papel de mera ilustração, sem menosprezo dessa importante função da representação do real. Neste livro, as bonitas imagens captadas são uma espécie de texto visual que anuncia, rodeia ou prolonga o texto literário, envolvendo o leitor no amplo processo de fruição da levada, enquanto obra insular e produto da Natureza. Trata-se, portanto, de uma antologia literária e fotográfica, mas um objecto com unidade, criado com palavras e registos da paisagem.

No processo em curso sobre a candidatura das levadas da Madeira a Património da Humanidade, junto da UNESCO, esta edição constitui mais uma importante achega para valorização de um legado cultural, que remonta aos tempos do povoamento da ilha.

Nesta antologia, narrativas, poemas e fotografias fixam imagens bem diversas das levadas e da sua paisagem, da rega e dos levadeiros, do quotidiano agrícola, de superstições e crendices, quando na noite não existia luz elétrica para iluminar as encostas, dos recorrentes e indómitos conflitos em torno da água de rega, de relatos de caminhadas e de visões inspiradas.

Com a chancela da Imprensa Académica, da Associação Académica da Universidade da Madeira, disponibiliza-se um novo e diferente instrumento para a compreensão das levadas como obra da cultura madeirense.

Santos, Thierry Proença dos, org. – Levadas da Madeira: uma antologia literária. Francisco Correia, fot. Nelson Veríssimo, posfácio. Funchal: Imprensa Académica, 2017. ISBN 978-989-99638-5-6.

Funchal Notícias. 17 Maio 2017

Levadas da Madeira: uma visão literária

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A Assembleia da República aprovou por unanimidade, em 6 de Fevereiro de 2015, um projecto de resolução, apresentado pelo Partido Ecológico «Os Verdes», que recomendava ao Governo o apoio à candidatura das levadas da ilha da Madeira a Património da Humanidade, junto da UNESCO.

A Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais assumiu a tarefa de elaboração da proposta de candidatura e anunciou, na imprensa, a data prevista para a sua conclusão. Por certo, o processo está em curso. Contudo, quase nada veio a público sobre este assunto.

Uma classificação desta natureza deveria, porém, envolver a população e não surgir apenas como deliberação de cima para baixo dos órgãos de governo.

Quando a comunidade está informada e participa numa candidatura de classificação do património cultural, avocando o projecto como seu, o bem a salvaguardar revela a marca da identidade regional e, no futuro, estará mais protegido, pelos laços de afecto que suscita.

Classificar as levadas não é classificar canais que transportam água. À volta das levadas, há história, leis, iconografia, textos literários, património natural, imóvel (casas da água e dos levadeiros, relógios de água…), móvel (instrumentos ou utensílios usados na construção e manutenção) e imaterial (lendas, vocabulário, tradições, saberes e técnicas ou práticas ancestrais…). Há problemáticas geológicas, hidráulicas, silvícolas e ecológicas.

Levada. Balcões, Ribeiro Frio, Madeira. Foto: NV, Dezembro 2015.

Uma classificação suscita questões do domínio da propriedade e do direito consuetudinário. Implica condicionamentos nas zonas envolventes. Restrições que precisam de ser explicadas ao povo e por ele compreendidas.

Outra questão diz respeito ao estado de algumas levadas que se apresentam muito alteradas ou, melhor, adulteradas por intervenções pouco felizes, principalmente após as frequentes derrocadas, quando o tempo urge e os princípios de salvaguarda do património são postos de parte.

Levanta-se, por conseguinte, a dúvida se se devem classificar apenas algumas levadas, as principais ou as que apresentam características tradicionais, ou todo o sistema de irrigação, canais principais e secundários. Como chegar a um critério de classificação consensual e adequado à realidade regional?

Por outro lado, hoje é indiscutível o valor das levadas para o Turismo. A levada deixou de ser apenas um canal que conduz água para consumo doméstico, regadio ou para produção de energia eléctrica.

Uma classificação terá, como é lógico, grandes repercussões nesta área vital da economia da Região Autónoma da Madeira. Implica mais e melhor informação, obras de recuperação e conservação, segurança nos percursos. Investimento de capital com possível retorno a médio ou longo prazo.

Destas e de outras questões sobre a classificação das levadas não se pode manter afastado o madeirense. Há, pois, que romper com o secretismo e promover acções que envolvam a população num projecto ambicioso e, por natureza, interdisciplinar, a condizer com a grandiosidade das levadas, nascidas das necessidades do quotidiano, mas que o culto e o fascínio pela paisagem, e a motivação para a sua descoberta, trouxeram outros desígnios a essa obra secular da cultura madeirense.

 

Funchal Notícias. 29 Março 2017

Classificação das levadas

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A 6 de Fevereiro de 2015, a Assembleia da República aprovou, por unanimidade, um projecto de resolução que recomenda ao Governo o apoio à candidatura das levadas da ilha da Madeira a Património da Humanidade, junto da UNESCO.

Já em 1994, o Governo Regional da Madeira, por resolução de 17 de Março, pretendeu igual candidatura. Foram, então, nomeados o engenheiro Henrique Costa Neves e eu próprio para a elaboração de um relatório conducente à almejada candidatura. A nossa proposta foi entregue em 26 de Julho de 1995 ao Secretário Regional de Agricultura, Florestas e Pescas, a fim de ser remetida à Comissão Nacional da UNESCO, onde foi apreciada favoravelmente. Contudo, apesar de satisfazer os requisitos então exigidos, veio a ser, política e estrategicamente, suspensa, em benefício da candidatura da Laurissilva que, com efeito,  obteve a classificação de Património da Humanidade em 1999.

Agora que o assunto voltou à ribalta política, por iniciativa parlamentar do Partido Ecológico «Os Verdes», importa não o deixar cair no esquecimento. Embora essa decisão caiba, em primeiro lugar, ao governo regional que vier a ser constituído na sequência das eleições de 29 de Março para a Assembleia Legislativa da Madeira.

As levadas da ilha da Madeira são canais ou aquedutos construídos, desde o início do povoamento, mas com continuidade nas épocas seguintes, para irrigação agrícola e força motriz. Desde meados do século XX, servem também para abastecimento das centrais hidroeléctricas. Hoje, as levadas apresentam-se ainda como percursos para desfrute da Natureza, com grande importância ao nível do Turismo.

De início as levadas eram tiradas a partir dos caudais das ribeiras ou de nascentes e mantidas pelos regantes, sendo a água considerada um bem comum. Mas, progressivamente, muitos usufrutuários das levadas tornaram-se seus proprietários, associando a água à terra cultivada, através da consignação do direito de determinado tempo de rega a uma propriedade agrícola. Permaneceram, no entanto, as levadas do Estado, que as geria e conservava.

A classificação pretendida justifica-se pela conjugação harmoniosa de diversos factores. Assim, em nosso entender, a proposta a elaborar, que esperamos conjugue opiniões diversas, inclusive, como é natural, a da própria Universidade da Madeira, e motive forças sociais distintas, deverá ter em conta a História, o Direito, a Engenharia Hidráulica, o Património Material e Imaterial associado às levadas, a Biodiversidade, bem como o léxico específico e as tensões sociais ancestralmente ligadas à gestão, distribuição e utilização da água.

O inestimável valor patrimonial das levadas exige que estas sejam devidamente protegidas, correctamente recuperadas e adequadamente geridas em termos ambientais, económicos, turísticos e, sobretudo, como herança cultural.

In Boletim do Centro de Investigação em Estudos Regionais e Locais da Universidade da Madeira. Funchal. ISSN 2183-458X. Ano 2, n.º 1 (Março 2015) 9-10.

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