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O fim do mundo rural?

[…] quando envelhece, [a fénix] constrói um ninho com ramos de caneleira e de incenso, enchendo-o de perfumes, e ali se deita até morrer. Dos seus ossos e medula nasce primeiramente um verme, que se transforma em um pequeno pássaro. Este primeiro realiza os ritos funerais para o pássaro anterior e carrega todo o ninho para a Cidade do Sol perto de Panchaia, depositando-o sobre um altar.

Plínio, História Natural, X.2

O primeiro anjo tocou a trombeta. Saraiva e fogo, misturados com sangue, foram lançados sobre a terra; queimou-se uma terça parte da terra, a terça parte das árvores e também toda a erva verde.

Ap 8, 7

O trágico incêndio de Pedrógão Grande, tal como outros ocorridos em diversas regiões do país, revela, aparentemente e segundo os media, muitas fragilidades em vários domínios – sistema de comunicações, coordenação, meios de combate, forças de segurança, protecção das populações – bem como outras reconhecidas falhas ao nível da prevenção, sendo sempre referidas a deficiente gestão de combustível numa faixa de 50 m de terrenos confinantes com edificações, designadamente habitações, estaleiros, armazéns, oficinas, fábricas ou outros equipamentos, a limpeza de terrenos florestais, o ordenamento florestal, a questão da propriedade florestal, maioritariamente privada, e a proliferação desregrada das plantações de eucaliptos, algumas não licenciadas.

Tudo isto é repetido até à exaustão nos meios de comunicação social. O cidadão comum informado já aprendeu e habituou-se a usar esta terminologia nas suas conversas. Tornou-se substância do senso comum.

Como leigo na matéria, diante das imagens destas catástrofes, pressinto que o mundo rural, em especial o das nossas aldeias, está a caminhar para o fim.

O declínio do mundo rural começou nos anos sessenta do século passado. Contudo, o romance Quando os lobos uivam, de Aquilino Ribeiro, publicado em 1958, anuncia já o princípio do fim das comunidades rurais da cartografia beirã do escritor.

A emigração e o êxodo para o litoral, sobretudo para os centros urbanos, a par com outras alterações decorrentes de investimentos do Estado, que destruíram fontes tradicionais de riqueza ou de subsistência, despovoaram as aldeias. A urbanização e a globalização contribuíram também para esse processo de desagregação do Portugal rural, do qual tantos se afastaram na esperança de uma vida melhor. Hoje, em muitas e remotas terras, encontramos uma população reduzida e envelhecida e uma economia rural em crise. Comunidades desamparadas sem capacidade política para reivindicar o quer que seja.

A agricultura foi abandonada. Faltou o capital. Já não havia força anímica para o investimento. A introdução de novas normas fiscais ou do domínio da higiene alimentar dificultou a vida de produtores seniores pouco letrados. O minifúndio também não favorece o empreendedorismo agrícola.

O abandono das culturas originou a proliferação de espécies infestantes, transformando as antigas parcelas agrícolas em matagais. A negligência impera em muitos locais.

Os hábitos alteraram-se e, por conseguinte, a relação do homem com a floresta também se modificou. Deixou-se de consumir lenha no dia-a-dia. Reduziu-se a quantidade de varas ou estacas nas vinhas… Os feijoeiros já trepam fios e redes de plástico… Os estábulos e armazéns ou barracões agrícolas deixaram de ser construídos com madeiras… Enfim, não se verifica hoje o que Aquilino testemunhou: «E aldeias e serras estão consubstanciadas até a sua fibra mais íntima.»

Depois da tragédia, choram-se os mortos, gera-se, de imediato, generosa solidariedade, desenham-se programas de apoio às populações afectadas, prometem-se políticas de desenvolvimento rural, investiga-se o que falhou, alvitram-se soluções e, quicá, aprovar-se-ão medidas para evitar novos flagelos.

No entanto, permanece a dúvida sobre uma questão repetida com frequência nas últimas décadas: haverá vontade política para não deixar morrer estas comunidades rurais?

Continuará a política de desprezo pelo mundo rural?

De novo, impõe-se a escolha: ou a fénix, que renascerá das cinzas, ou o anjo apocalíptico que não tardará em ressoar a sua maldita trombeta.

 

Funchal Notícias. 28 Junho 2017

 

O fim do mundo rural?

 

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