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Memória e História

Há quem ouse pensar que, por ter sido protagonista de determinada era, também escreverá a história desse mesmo tempo. Nada mais errado!

Independentemente do título atribuído, um livro de memórias não passa de um testemunho. A visão do próprio sobre os acontecimentos em que esteve envolvido. Mesmo alicerçado em documentos, que o memorialista foi arquivando, não deixa de ser a perspectiva do actor.

Apesar da subjectividade implícita, as memórias constituem, sem dúvida, importantes fontes para a História. A perspectiva de quem participou nos acontecimentos, e dos mesmos construiu a sua narrativa, revela, quase sempre, curiosas peripécias e pormenores insólitos, dificilmente representados em relatos de outra natureza.

No entanto, ao historiador caberá a tarefa de confrontar os diversos testemunhos conservados, analisando e debatendo hipóteses previamente formuladas. Exige-se-lhe, por conseguinte, atitude prudente em relação aos livros de memórias.

Mais inquinada se revelará a narrativa deste género, quanto conhecido for o comportamento do seu autor no tempo objecto de relato. Se, com acintosa obsessão, tentou neutralizar ou silenciar tudo o que, no seu entender, poderia pôr em causa ou denegrir o seu programa, acção e personalidade, e, deliberadamente, propagandeou, com regularidade, uma versão oficial escrita da sua actuação, então, por certo, o seu testemunho enfermará dos vícios que marcaram o tempo do seu discurso.

O livro de memórias é escrito a partir da selecção de factos, que o seu autor elege como dignos ou pertinentes. Sobre estes, irá construir a narrativa, que pretende venha a prevalecer. A sua verdade. Nesse esforço, irá privilegiar certos aspectos e esquecer tantos outros.

O esquecimento dissimulado é prática recorrente neste género. Não será, todavia, pecado dos mais graves. Pior é a manipulação e ideologização da memória. Isto é, o narrador em vez de se preocupar em revelar ou analisar o que, na verdade, aconteceu, e que se conhece mal, vai carreando elementos daqui e dacolá para, no fundo, juntar mais peças ao rasto panegírico, que sempre se preocupou em construir. Já não são memórias, mas pegadas areadas com detergente, ingenuamente tido como eficaz, a exemplo de tantas outras, que, com astúcia, foi desenhando e redesenhando no receio de que a maré as apagasse.

Essa tentativa de apropriação do passado histórico, com os actores a narrarem-se a eles próprios numa conversa fantasiosa e falaciosa, de nada servirá à História.

Contudo, não se pode privar o actor de contar a sua história, mas, inquestionavelmente, será sempre a sua história, não a História.

Funchal Notícias. 31 Maio 2017

 

https://funchalnoticias.net/2017/05/31/memoria-e-historia/

 

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