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Silêncio comprometedor

No passado dia 14, foram divulgados comunicados da Associação de Pastores das Serras de São Roque e de Santo António e da Associação Cartilha Madeirense, protestando contra a extinção, por envenenamento, das cabras do Bugio. Até agora, a notícia não foi desmentida nem o assunto, em causa, mereceu qualquer explicação pública por parte do Instituto das Florestas e Conservação da Natureza (IFCN) ou da Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais (SRARN).

Perante esta realidade, esperava-se que dirigentes ou governantes viessem a público justificar o que se passou ou expor os motivos da matança. Mas, infelizmente, aqueles que se mostram tão zelosos nos contactos com a comunicação social para divulgarem coisas de somenos importância, e que só nesta região são objecto de reportagens ou notícias, desta vez nada esclareceram, como se o povo nada tivesse a saber ou a ver com isso, julgando talvez que o Bugio é propriedade privada. Esta postura em nada credibiliza quem governa nem se coaduna com o regime democrático, dando azo a especulações ou ilações infundadas.

Mesmo correndo tal risco, o silêncio comprometedor do IFCN e da SRARN ditou este artigo.

No Bugio, existem cabras e bodes desde o século XV. Foram ali introduzidos a mando do infante D. Henrique. O cronista Gomes Eanes da Zurara, na sua Crónica de Guiné, escrita por volta de 1453, afirmou que o Infante «fez lançar gado» na Deserta, o que constitui uma prática comum na época dos Descobrimentos. Valentim Fernandes precisa que a introdução de gado ocorreu no ano de 1420.

Jerónimo Dias Leite, em 1579, asseverou que, no Bugio, havia gado miúdo e fina urzela «de que se tira proveito». Gaspar Frutuoso repetiu as palavras do primeiro cronista madeirense, acrescentando, porém, que se criavam «muitas cabras bravas nas rochas, que, a tempos, vão tomar com cães».

A infanta D. Beatriz, na qualidade de tutora de seu filho, o duque-donatário D. Diogo, doou, em 1477, o Bugio a João Gonçalves da Câmara, segundo capitão do Funchal, para ali lançar gado, com a expressa obrigação de pagar o dízimo à Ordem de Cristo.

Em 28 de Julho de 1481, a Câmara do Funchal permitiu, ao contador e a João da Castanheira, a aquisição de gado, que viera das Canárias, para cabresto das cabras bravas que traziam da Deserta.

Na verdade, o interesse económico no povoamento das ilhas Desertas assentava na colheita da urzela e na criação de gado.

Assim se conclui que, desde o século XV, existiram cabras no Bugio e que, ao longo dos séculos, esta espécie conseguiu sobreviver, adaptando-se às condições agrestes da ilha: ausência de água potável, vegetação escassa e relevo acidentado.

Sobre a sua adaptação ao Bugio e misteriosa sobrevivência ao longo dos tempos, o padre Manuel de Nóbrega publicou, em 2001, um interessante artigo no n.º 28 da revista Islenha, defendendo que os líquenes, ali existentes, serviam de alimento às cabras e garantiam-lhes a água de que necessitavam.

Com frequência, associa-se esta população de caprinos às Canárias. Deste arquipélago teriam sido importados para as Desertas. Nos finais dos anos 1980, contaram-me que autoridades desta Comunidade Autónoma de Espanha teriam solicitado, ao Governo Regional da Madeira, a doação de dois casais desta espécie, do Bugio, porque se trataria da cabra pré-hispânica já extinta naquele arquipélago, o que teria sido recusado. No entanto, nunca consegui comprovar a veracidade deste pedido.

Segundo as notícias que vieram a lume na semana passada, a cabra do Bugio foi exterminada com malvadez inconcebível no século XXI.

O Bugio é uma área de preservação da Natureza e, em particular, de uma ave marinha pelágica, endémica da Madeira, a Pterodroma deserta, a freira-do-bugio, que nesta ilha nidifica. De acordo com o  Atlas das Aves Marinhas de Portugal (2014), «as principais ameaças a esta espécie estão associadas aos locais de reprodução. A perda de habitat disponível devido à erosão provocada pelo vento, pela chuva e pela presença de mamíferos introduzidos, nomeadamente coelhos e cabras, contribuiu para a diminuição da área potencial de nidificação da freira-do-bugio». Procedeu-se, por conseguinte, à erradicação das populações de ratos-domésticos, de cabras e de coelhos, no âmbito do projecto SOS freira-do-bugio.

Conforme informação disponível no sítio do IFCN, «atualmente e decorrente das ações implementadas no projeto SOS freira-do-bugio foi conseguida a erradicação de coelhos e murganhos na ilha do Bugio, caso de sucesso numa ilha tão grande.» Mas não se fala das cabras.

O que se teria passado? De acordo com a Associação de Pastores das Serras de São Roque e de Santo António e da Associação Cartilha Madeirense a cabra do Bugio foi extinta por envenenamento. Urge uma explicação. Esta situação não pode ser disfarçada nem ocultada.

Foi estudada a possibilidade de confinar esta espécie a determinada área ou mesmo a sua transferência para um lugar vedado da Madeira? Ou seria procedimento inviável?

A cabra do Bugio não terá uma diferenciação genética ao ponto de constituir uma nova espécie ou uma subespécie. Mas deveria ser objecto de estudos científicos. Em condições adversas, uma população de cerca de meia centena de caprinos conseguiu adaptar-se e sobreviver durante quase seis séculos. Essas adaptações teriam originado uma variedade a preservar?

Foi elaborado um estudo genético sobre a cabra do Bugio? Na suposição de que foi realizado, quais as amostras utilizadas? De cabras do Bugio ou do exemplar exposto no Museu de História Natural do Funchal? O número de amostras da Madeira, que serviram de comparação, teve correspondência adequada com o número de amostras de cabras do Bugio? O estudo, em causa, será publicado?

Foram reunidas garantias científicas para se poder afirmar que a população de cabras do Bugio não suscita qualquer preocupação ou interesse do ponto de vista de manutenção de um património genético?

Todas estas e outras questões deveriam merecer resposta de quem governa, mas que também possui reconhecida experiência no labor científico e técnico.

Por estas e outras razões, acho que a Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais deveria vir a público explicar o que, com efeito, se passou ou se está a passar.

O silêncio compromete. É, por vezes, sinónimo de consentimento. Propaga rumores, que a prudência aconselha evitar. Esclarecer comprometerá ainda mais?

 

Funchal Notícias. 21 Junho 2017

 

Silêncio comprometedor

 

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