Passos na calçada

Confiança social na Escola

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Basta percorrer as imediações de um estabelecimento escolar e registar algumas conversas de rua, para ficarmos com uma ideia de como alguns pais se referem aos professores dos seus filhos, na presença destes, a caminho ou de regresso da escola. Por vezes, não se abstêm de termos injuriosos e de desveladas ameaças.

Não querendo parecer saudosista, anoto a diferença do que se passava há mais de quatro décadas. Minha mãe perguntava: “O que é que o Senhor Professor mandou hoje como trabalho de casa?”. Actualmente, ouço com frequência: “O que é que ela mandou para casa?”. “Isso é muita coisa, ela tá louca ou que é? Tu não vais fazer o que ela quer e, amanhã, ela vai ouvir”.

A diferença de tratamento entre o “meu tempo” e os dias de hoje, manifestada neste exemplo real, demonstra bem a pouca consideração que, presentemente, muitos pais dedicam aos professores dos seus filhos e como a revelam em público, sem qualquer pudor.

É claro que não se deve generalizar, nem tão-pouco pensar que este desrespeito existe somente do lado dos pais ou encarregados da educação. Também há professores que dão azo a situações desagradáveis e que tratam os pais ou encarregados de educação com reduzido apreço. Já a alguns ouvi dizer que “os pais são a parte pior da escola”.

Para além de uma disseminada falta de educação, estes exemplos ilustram e introduzem um tema bem complexo. Na verdade, verifica-se uma crise de confiança na Escola por parte do público que, não raras vezes, a responsabiliza pela generalização da mediocridade.

O Ministério da Educação tem consciência deste problema e, por diversas ocasiões, já o referiu. Por exemplo, no Despacho de 14 de Fevereiro de 2006, a Senhora Ministra da Educação afirmou que a avaliação aferida, no final dos 1.º e 2.º ciclos do ensino básico, “destina-se a avaliar o desenvolvimento do currículo nacional e a aquisição pelos alunos do nível de desenvolvimento das competências essenciais e estruturantes definidas para os respectivos ciclos, com o propósito de contribuir para a tomada de decisões, no sentido de melhorar a qualidade das aprendizagens e reforçar a confiança social no sistema educativo.”

Compreende-se a boa intenção, mas temos dúvidas sobre o pretendido reforço da confiança social no sistema educativo através das provas de aferição. Acreditamos que estas provas têm alguma utilidade, sobretudo, pelos estudos que possibilitam, pela divulgação pública de resultados e pela desejável tomada de decisões face ao previsível insucesso. Mas a comunidade depositará mais confiança na Escola após conhecer as médias alcançadas?

Por outro lado, há que analisar, com rigor, estas provas de aferição. Tomemos, como exemplo, a de Língua Portuguesa para o 1.º ciclo do Ensino Básico. A prova está bem estruturada, mas é acompanhada de excessivas instruções que podem confundir o aluno. Até para fazer o rascunho, é enunciado o material necessário: lápis, borracha e apara-lápis.

O texto, apresentado na 1.ª parte e retirado da peça de teatro ‘Enquanto a cidade dorme’, de Álvaro Magalhães, é, essencialmente, um produto da cultura urbana. Não se pensou em seleccionar um texto que fosse, facilmente, compreendido tanto por crianças dos meios urbanos como dos meios rurais e as motivasse de igual modo.

O excerto escolhido da peça de Álvaro Magalhães apresenta a cena em que uma menina se prepara para dormir e é surpreendida pelo anão Martim. Ora, num tempo em que tanto se fala na inclusão, esta fabulosa personagem pode incomodar, tanto no texto, cuja interpretação se exigia, como na continuação do diálogo entre a Ana e o anão, que os alunos tinham de construir na 2.ª parte. Imagine-se como se sentirá uma criança, que apresenta nanismo, sujeita a esta prova?

O texto contém ainda vocábulos que, ao que julgo, a maioria dos alunos desconhece. Conhecerá um aluno do 4.º ano de escolaridade a palavra “sílfide”? É verdade que não há nenhuma questão que envolva tal termo da mitologia céltica e germânica da Idade Média, mas, num texto de uma prova de aferição deste nível, o significado de todos os vocábulos deveria ser, naturalmente, identificado pelo aluno ou, então, colocava-se no final um vocabulário, como noutros tempos.

Ainda que ao de leve, não podemos também deixar de abordar os critérios de classificação propostos. É incrível a desvalorização da correcção ortográfica na 1.ª parte da prova, com excepção apenas do item 10, e, até neste, com grande benevolência. Somente no diálogo, solicitado na 2.ª parte, são contabilizados os erros ortográficos.

Em suma, não acredito que as provas de aferição venham a reforçar a confiança social no sistema educativo português. Com estas provas, o Estado não exige nem responsabiliza. Limita-se a aferir, a retocar ou remendar, sem coragem para construir uma Escola de qualidade que, realmente, motive confiança.

Diário de Notícias, Funchal, 3 de Junho de 2007

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