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Emonts, Anne Martina: Mechtilde Lichnowsky : Sprachlust und Sprachkritik ; Annäherung an ein Kulturphänomen / Anne Martina Emonts. - Würzburg : Königshausen & Neumann, 2009

Emonts, Anne Martina: Mechtilde Lichnowsky : Sprachlust und Sprachkritik ; Annäherung an ein Kulturphänomen / Anne Martina Emonts. - Würzburg : Königshausen & Neumann, 2009


Martina Emonts acaba de publicar, na Alemanha, a sua dissertação de doutoramento. Com a chancela da prestigiada Königshausen & Neumann, editora especializada em Ciências da Cultura, de Würzburg, Mechtilde Lichnowsky – Sprachlust und Sprachkritik (Mechtilde Lichnowsky – o prazer e a crítica da linguagem) constitui mais um importante contributo para a internacionalização da Universidade da Madeira. Trata-se de investigação desenvolvida na UMa, agora disponível no mercado livreiro.

É o primeiro estudo de grande fôlego sobre Mechtilde Lichnowsky (1879-1958), escritora que, em vida, publicou dezoito livros. Para além da escrita (poesia, romance, novela, ensaio, reflexão filosófica – é difícil enquadrar a sua produção literária na nomenclatura tradicional), dedicou-se à música, fotografia, desenho, escultura e caricatura. Era uma mulher de grande sensibilidade e lucidez, que prezou o amor e o humor. A linguagem, o género e a arte são temas recorrentes na sua obra. Assumiu também atitudes pedagógicas a respeito do comportamento e da linguagem, norteada por princípios de bom gosto, de coerência e de recusa de qualquer forma de opressão.

Apesar da vasta obra editada, da admiração que granjeou em vida, em particular de Karl Kraus, Rainer Maria Rilke, Hugo von Hofmannsthal e Theodor W. Adorno, dos seus ideais democráticos e dos círculos que frequentou, Mechtilde Lichnowsky, nos dias de hoje, é uma escritora pouco conhecida, insuficientemente estudada e fora do cânone de expressão alemã.

Foi, exactamente, esta constatação que motivou a investigação de Martina Emonts. Sobre a escritora havia encontrado breve referência, uma única linha numa História da Literatura, e que se resumia ao seguinte: «Mechtilde Lichnowsky tem uma maneira invulgar de descrever figuras femininas».

É conhecido o interesse de Martina Emonts sobre as questões do género. Recorde-se que a sua dissertação de mestrado – Onde há galo não canta galinha: discursos femininos, feministas e transgressivos nos anos vinte em Portugal. O caso do suplemento literário e ilustrado de A Batalha (1923-1927) – foi galardoada com o prémio Mulher Investigação – Carolina Michaëlis de Vasconcelos, da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, em 2001.

Martina Emonts desenvolveu a sua investigação em arquivos e bibliotecas alemães, checos, americanos, austríacos e suíços, tendo a felicidade de descobrir e identificar documentos inéditos ou que se julgavam desaparecidos. Em resultado destas pesquisas, novos elementos nos são revelados sobre a obra de Mechtilde Lichnowsky e outra perspectiva nos é apresentada sobre a Europa do seu tempo, que não somente influenciou a escritora, mas também beneficiou dos seus contributos.

Mechtilde Lichnowsky dedicou grande atenção à linguagem, imprescindível na observação de uma pessoa ou uma sociedade. Daí a sua atenção à análise do discurso. Exemplo disso é o seu estudo, por razões óbvias não publicado, sobre o Mein Kampf (A minha luta), de Adolf Hitler. Mechtilde concluiu, pela linguagem, que H. (a escritora recusou sempre escrever ou pronunciar o seu nome, e a ele se referia apenas por esta inicial) era um homem perturbado.

Outro aspecto interessante diz respeito ao que Mechtilde Lichnowsky pensava sobre os especialistas e que ficou bem expresso em Der Kampf mit dem Fachmann (A luta com o especialista), de 1924, livro muito apreciado por T. W. Adorno. A escritora, através de múltiplos exemplos, ilustrou o quanto pretensos especialistas proferiam tretas, simplesmente, por não reflectirem sobre o uso da sua própria linguagem.

Mechtilde Lichnowsky tinha uma avó portuguesa – D. Matilde Lobo da Silveira, condessa de Oriola (1827-1889) –, a quem atribuía a sua veia literária e dedicava profunda admiração. Contudo, as obras da escritora alemã nunca foram editadas em Portugal. E durante a sua vida, compreende-se bem porquê – a autora fora vítima do bibliocausto nazi.

O livro de Martina Emonts contribuirá para a reabilitação da memória de Mechtilde Lichnowsky na História da Literatura e Cultura de expressão alemã e para a sua integração no cânone estabelecido.

Diário de Notícias, Funchal, 3 de Maio de 2009



O filósofo francês Georges Gusdorf (1912-2000) sublinhou a necessidade da existência de «especialistas da não especialidade», ou seja, de homens e mulheres de cultura científica e humanística que vissem para além do ramo estreito que estudaram.


Esta afirmação, associada a outras teses suas sobre interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, vem sugerir a premência da abertura de pensamento para o «campo unitário da cultura». Não se trata somente de reunir especialistas de diferentes ramos do saber («interdisciplinaridade por justaposição ou por adição», segundo Gusdorf), mas antes procurar o saber universal. Daqui decorre nova forma de conhecimento. Uma cosmovisão totalizadora e unificadora. Um espírito científico aberto ao diálogo.


Em síntese, Gusdorf, neste particular, preconizava a «educação do sentido interdisciplinar», partindo do princípio que inúmeras especialidades fragmentavam o conhecimento e faziam desaparecer o sentido da unidade humana.

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Logo, o professor deveria ser um «revelador da totalidade», proposta pedagógica que implicava profunda reformulação das mentalidades e consciência da unidade do saber.


Com efeito, as divisões do campo científico são traçadas com linhas artificiais. Existem apenas pela necessidade de sistematizar, tendo em vista pesquisa e conhecimento mais aperfeiçoados de determinados ramos do saber.


No entanto, se as delimitações de diferentes campos têm-se revelado, na sua maioria, úteis e fundamentais ao progresso científico, já os muros que, estupidamente, alguns criam à volta de uma determinada área, cerrando barreiras como se a «sua ciência» fosse um compartimento estanque, constituem desastrados empecilhos à cooperação, à inovação e à compreensão da totalidade, tão cara à filosofia e tão importante para a ciência contemporânea.


Esses nichos, que proliferam em alguns meios académicos, não se coadunam com um verdadeiro espírito universitário. Geram separações que dificultam o trabalho em comum, prioritário na instituição.


Quem estudou História facilmente tem consciência do todo que constitui o passado do Homem. O historiador tem, obrigatoriamente, de praticar a interdisciplinaridade, para compreender e explicar as vivências sociais.


Em História, constitui prática constante o intercâmbio com várias ciências ou a colaboração recíproca. Vejamos um exemplo: como explicar os efeitos da Peste Negra, sem recorrer à medicina, à economia, à política, à demografia, à religião, à antropologia, sem entender as práticas agrícolas medievais, os fenómenos do banditismo, vagabundagem e mendicidade, a atracção das cidades ou os mecanismos tributários, por exemplo?


Por outro lado, o historiador consciente sabe perfeitamente que os territórios da sua arte podem constituir especialidades ou subespecialidades. Todavia, serão sempre partes de um todo, divisível apenas por abstracção. Falamos em História Económica, História Social, História Política ou História Cultural. Mas todas estas especialidades são História. Representam sofisticadas divisões para o desenvolvimento de uma investigação mais profícua.


A História da Educação é, naturalmente, História, pese embora a sua afirmação no âmbito académico das Ciências da Educação. Tem um campo de investigação delimitado. Estuda uma parcela da actividade humana – a educação. Contudo, tem, em devida conta, outros aspectos da vida do Homem em sociedade e as estruturas políticas, administrativas e económicas. Constitui, sem dúvida, uma disciplina da área da História, uma investigação sectorial da História. E se recusar a sua natureza, radicalmente histórica, perderá credibilidade científica.


Os historiadores da educação devem envolver-se em projectos com outras áreas da História e das demais Ciências Humanas e Sociais e não se fecharem no seu recanto. Devem integrar-se na comunidade científica dos historiadores e contribuir para a promoção daquilo que verdadeiramente os une: a História.


Diário de Notícias, Funchal, 5 de Abril de 2009

Cruz Filipe

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Para muitas gerações, o nome deste autor é sobejamente conhecido. Embora fossem quatro os autores de Leituras da IV Classe – da minha e de quantas, meu Deus! –, o livro aprovado oficialmente era, na verdade, denominado por Cruz Filipe. Dos outros co-autores – Manuel Subtil, Faria Artur e Gil Mendonça –, ninguém, inexplicavelmente, se lembrava. As ilustrações, da responsabilidade de Eduardo Romero, também não eram mencionadas.

Guardo, zelosamente, exemplares de 1952 (79.ª edição) e de 1962 (126.ª edição) da Livraria Sá da Costa Editora. A 1.ª edição é de 1931.

Este livro de leitura é composto de textos de autores diversos, de quadros históricos, máximas, alguns exercícios, uma breve síntese de regras ortográficas e uma pequena lista de vocabulário.

Alguns autores consagrados da nossa literatura são incluídos na parte final e deles foram esboçados curtos traços biográficos, que acompanham excertos da sua obra. Camões, António Vieira, Manuel Bernardes, Herculano, Garrett, Castilho, Tomás Ribeiro, Camilo, Júlio Dinis, João de Deus, Trindade Coelho, Eça e Augusto Gil são os vultos literários que constam desta antologia. Curiosa e propositadamente, não aparecem autores de livros para crianças ou adolescentes.

No Salazarismo não havia, com efeito, lugar para Maria Lamas, Mestre Aquilino, Sidónio Muralha ou Sophia de Melo Breyner, entre outros. Além da aversão a escritores democratas, o regime preconizava uma educação austera, sem espaço para a fantasia mágica da literatura infantil ou juvenil, como, por exemplo, de A Menina do Mar, editada, pela primeira vez, em 1957.

As máximas, na sua maioria de Castilho, no final de algumas páginas, só por si denotavam os valores dominantes do sistema educativo de então: «Na família, o chefe é o Pai: na escola, o chefe é o Mestre: no Estado, o chefe é o Governo.»; «No barulho ninguém se entende, é por isso que na Revolução ninguém se respeita.»; «Obedece e saberás mandar.»; «Se tu soubesses o que custa mandar, gostarias mais de obedecer toda a vida.»; «Mandar não é escravizar: é dirigir. Quanto mais fácil for a obediência, mais suave é o mando.»; «A tua Pátria é a mais linda de todas as Pátrias: merece todos os teus sacrifícios.»

Não é minha intenção analisar o modelo educacional dos anos do consulado salazarista, nestes Passos na Calçada. Mas as Leituras, à moda da época, vieram-me à lembrança, desgraçadamente, nos dias da Festa. Explico já porquê.

Na minha quase obsessão de recolher referências bibliográficas sobre a Madeira, encontrei na Biblioteca Nacional, há cerca de um mês, um opúsculo intitulado A Ilha da Madeira, pérola do oceano. A cidade do Funchal, jóia rotária. Trata-se da publicação da palestra realizada na sessão de 11 de Fevereiro de 1936, no Rotary Club de Lisboa, pelo Prof. Cruz Filipe. Associei-o, de imediato, com as Leituras da IV classe. Uma pesquisa posterior permitiu-me concluir que o co-autor do famigerado livro dos ditados e interrogatórios de interpretação e gramática escrevera sobre a Madeira.

Cruz Filipe (Manteigas, 1890-Lisboa, 1972) era professor da Casa Pia, em Lisboa, especialista no ensino de surdos-mudos, ortofonia e de deficientes mentais.

No fim do ano de 1935, reuniram-se, no Funchal, rotários de Tenerife, Suíça, Riga, Hamburgo, Porto e Lisboa.

O Prof. Cruz Filipe participou neste encontro comemorativo do segundo aniversário do Rotary Club do Funchal, como representante do clube de Lisboa. Chegou ao Funchal no Lima nas vésperas do Natal de 1935.

Na Madeira, os rotários participaram em diversas manifestações de solidariedade social: distribuição de roupas, brinquedos e bolos na creche de Santa Clara e no Lactário; de bengalas a cegos e berços e enxovais a doze crianças pobres.

Além de vários passeios pela ilha, reuniram-se em jantares no Hotel da Bela Vista, no Reid’s Palace e Savoy. Realizou-se também um baile de gala na Quinta Vigia.

A passagem de ano motivou uma festa rotária oferecida por Frederico de Freitas, primeiro presidente do clube funchalense, na sua residência. Vinhos, doces, música, dança e «uma gentileza fidalga» tornaram inesquecíveis essas provas de amabilidade nas primeiras horas de 1936, conforme narra Cruz Filipe em A Ilha da Madeira, pérola do oceano…

Nesta preciosidade bibliográfica, pode-se ainda colher interessante descrição da noite de S. Silvestre, no Funchal.

Depois de deslumbrado pela imensidade de luzes que serpenteavam as encostas, na ansiosa espera pela meia-noite, Cruz Filipe vê assim o espectáculo da passagem do ano:

De repente, um silvo, outro e outro, muitos sem fim e por entre aclamações frenéticas, estonteantes, sentimo-nos presos de tanta maravilha. É meia-noite em ponto.

O fogo-de-artifício começa a enfeitiçar aquele solene momento. Já ninguém pensa nas agruras do ano que morre. Também ninguém se detém a supor o que será o ano que começa, porque é tal o frenesi que de todos se apodera que tudo esquece, para só se admirar, em êxtase, o deslumbramento deste fogo em conjunto, com crateras chispando chamas de ouro, num clarão constante de prata reluzente; foguetes que lá no alto estalejam para deixarem cair chuvas de estrelas multicolores, bouquets formosos e estonteantes; uma infinita maravilha que nos obriga a fixar ora aqui, ora ali, cada vez mais lindos, fogos brilhantes, num entrelaçamento harmonioso, a resplandecerem nas águas quietas da baía, casando-se intensamente com as linhas iluminadas dos oito navios que silvavam na baía, como que anunciar ao mundo este espectáculo de encanto, único, inconfundível – a glória da Pérola do Oceano.

Passado mais de meio século sobre estas palavras, ainda o fim de ano na Madeira continua a ser momento mágico de majestosa e enternecedora glória da ilha.

Este texto de Cruz Filipe nada tem a ver com as Leituras da IV Classe, da sua co-autoria. Devo dizer que desconheço a sua quota-parte nesse livro e, hoje, deve ser impossível fazer essa destrinça.

Do livro aprovado oficialmente, creio, desde 1931, que pretendia fazer de nós todos «um Gonçalo» tocado pelo «santo orgulho» da «santa Pátria»: rapaz pontual, bondoso, aplicado, cortês, respeitador, modesto, sem pretensões, aluno exemplar, – «Rapazes! Vamos a ver / se sabemos imitá-lo!… / se podemos proceder / em tudo como o Gonçalo.» – não guardo memória de um único texto dos seus autores.

Até a prosa dos escritores, seleccionados pelo seu valor literário, foi escolhida para satisfazer os objectivos do Regime, em termos educacionais. Apenas escapa «A balada da neve», de Augusto Gil, pela sua musicalidade e intenso lirismo.

Acabei desencantado ao reler, trinta anos depois, o meu livro da quarta classe. Ao invés, as impressões de Cruz Filipe, sobre o Funchal de 1935, despertaram-me para estes Passos, maquinados no ano velho e guardados para «o varrer dos armários».

Diário de Notícias, Revista, Funchal, 15 de Janeiro de 1995, p. 12

 

Chegava-se até lá facilmente, apesar de o sítio quase não se avistar do caminho. Qualquer pessoa das redondezas apontava a casa, indicava as melhores horas e o tempo provável de espera. Antes da vereda circundar alguns poios de terra cultivada, desciam-se cinquenta e sete degraus irregulares. Um alpendre, envolvido por uma vinha, acolhia-nos com frescura. Depois de um cumprimento quase a medo, correndo os olhos pelos que ali também esperavam, na ânsia de descobrir um conhecido, dizer «que fresquinho bom!» era a introdução habitual, em tempos de calor, para indagar se todos seriam recebidos ou até abrir caminho para confidenciar os motivos da ida àquele lugar, ainda que a justificação apresentada nem sempre coincidisse com a real.

A casa era antiga, modesta, de pedra aparelhada e coberta com telha de canudo. As paredes estavam caiadas de ocre, com uma barra cor de cinza. Os calhaus pequenos e redondos davam a volta à casa, formando aqui e ali irregulares desenhos geométricos. Esperava-se no alpendre, junto à porta da casa. Havia cadeiras e bancos de madeira encostados às paredes.

Para a porta convergiam os olhares, mal o trinco se desprendia. Levantava-se, de imediato, alguém, porque entendia ser chegada a sua vez. Nesse vaivém, agitava-se o ar e ouvia-se sempre uma voz rouca, bem forte, num alerta obsessivo, quase ritual, «O Santo e a Vizinha não se hão-de afundar». As pessoas calavam-se. Havia quem fechasse os olhos como a não querer ver a direcção da frase constantemente atirada para fora da porta, não sei se a empurrar os que tinham estado no interior da casa ou a saudar os que agora lá chegavam. Ninguém conhecia o significado exacto da profecia. Apesar de já se ter aventado estranha relação com as ilhas, todos temiam discussão lúcida sobre as repetidas palavras de Felismina.  

A sua fama corria a ilha e era muito consultada, até pelas autoridades, dizia-se. Todo o ofício tem a sua designação, mas o que esta mulher fazia não era, segundo ela própria, uma profissão. «É um serviço, e não importa o nome!», assim respondia quando lhe perguntavam. Insinuava-se que trabalhava com os anjos, seus filhos, e Felismina sorria levemente sem estranhar a curiosidade que despertava.

Não fosse um artigo publicado na imprensa, e poucos conheceriam o seu passado. Agora sabia-se que tivera sete filhos e todos haviam morrido com poucos anos de vida. Por esta razão, o marido partira, acusando-a de ter nascido para parir e não para criar. Embarcara para Angola. Mudara-se depois para a África do Sul, e nunca mais dele se soubera. A reportagem dava grande relevância aos «poderes» de Felismina, mas a jornalista não fora autorizada a publicar a sua fotografia.

Felismina não consentira, lembrando que há alguns anos fora levada à PIDE, na Rua da Carreira, para interrogatório. Estivera em apuros, um ror de suspeitas e questões que respondera com dificuldade, não só pelo seu teor, mas também por não estar habituada a que lhe fizessem perguntas com tão desmesurada insistência. Repetidas vezes invocara o facto de não saber ler nem escrever, para se esquivar ao interrogatório. Porém, os agentes não desistiam. Pretendiam saber por que razão Felismina havia afirmado a um militar, mobilizado para a Guiné, que a guerra estava quase a terminar e que, se ele tivesse juízo, não deveria partir. O cabo partilhou esta novidade com alguns amigos, e passado algum tempo todo o seu batalhão ficou a saber. A PIDE também foi informada e logo tratou de interrogá-la. O caso acabou arquivado com a ajuda de pessoa influente. Todavia, recebera algumas ameaças e até à Revolução praticou muito discretamente o seu serviço.

A jornalista tratou-a quase como uma heroína e a curiosidade sobre Felismina aumentou após a publicação da reportagem.

A ilha abrigava medos e ansiedades ancestrais, num diálogo surdo entre as montanhas e o mar. Lendas, superstições e rituais estranhos não eram somente cultivados entre o povo. Havia outras Felisminas, mas esta conquistara a cidade. Ela raramente saía de casa, mas quem governava pedia-lhe conselho.

 Para Felismina havia dois tipos de pessoas, os que vinham pelo dia e esperavam horas no seu alpendre e os outros, em hora marcada, quase sempre à noite. Só muito excepcionalmente aceitava deslocar-se a casa de quem pretendia consultá-la. A todos atendia de igual forma, até na confidencialidade, apesar de os da noite insistirem muito no sigilo, e para reforçarem esse pedido deixavam lembrança maior na caixa da sua sobrevivência.

Foi à noite que conheceu a mulher do governador. Não lhe tinha ainda perguntado o nome e a data do nascimento, como era habitual, e já se apercebera da condição de quem estava à sua frente. Não era pelo perfume. Na sua sala reinava o cheiro do seu ofício, sete velas a arder serenamente e, numa concha de latão sobre brasas incandescentes, incenso bastante, mirra, alecrim e outras ervas recolhidas em noites bentas. A senhora elegante, sentada num banco de madeira, com olhar temeroso percorria a sala, fixando-se nas estampas emolduradas que cobriam as paredes. Naquele ambiente de fraca luz, apenas conseguira ler «D. Sebastião» numa das gravuras. No entanto, não podia confirmar com a amiga que consigo viera, por ela ter sido impedida de entrar. Felismina revelou-lhe algumas verdades e aconselhou-a com sabedoria. Foi esta senhora quem a livrou da PIDE, conforme confessara à jornalista, sem mais nada revelar. Felismina fizera-lhe chegar a informação do que estava passando e, logo no dia seguinte, acabou-se o interrogatório.

 

O encanto da cidade estava na vizinhança com o mar. O cais era lugar privilegiado do entardecer soalheiro. Passeava-se ali, deixando a ilha para trás. Retornava-se a ela depois, sem nunca dela se sair. Parecia que entrávamos pelo mar, com os pés em terra.

Em meados de Novembro de 1975, o ambiente do cais tinha-se alterado. As conversas, junto das varandas, eram também diferentes. Algumas traineiras vindas de Benguela estavam ancoradas do lado esquerdo do cais. Traziam mazelas da viagem. As cores das listras do casco mal se distinguiam, assim cobertas por borrões de manchas ferruginosas. Ainda se distinguiam os seus nomes, Rainha Santa, Sãozinha, Santíssima Trindade, Caniçal e outros mais, nomes de devoção, de namoradas, da terra natal, e até do proprietário, Calafatinho, que embora parecesse alcunha, não o era. A bordo, algumas mulheres, crianças, poucos homens e um macaco travesso, amarrado por uma corda ao mastro principal.

Das traineiras olhava-se o cais e interrogava-se a ilha. Do varandim sentia-se o desmoronar do Império, perante o angustiado regresso. Deixaram casas, automóveis e tantos outros bens. Contudo, poderiam voltar à faina.

No cais também estavam muitos dos que haviam regressado de avião. Descobriam-se amigos, contavam-se amarguras, antecipava-se o futuro. Não se escutava resignação. A cidade tornara-se mais pequena, com mais gente, rostos queimados pelo sol, deambulando pelas ruas…

Edifícios degradados e com demolição anunciada e casas há anos desocupadas enchiam-se agora de refugiados. As autoridades municipais fechavam os olhos diante das ocupações. As pensões do centro da cidade estavam cheias. Nas varandas estendia-se roupa, e ao fim da tarde viam-se caras estranhas que gostavam de fixar o horizonte.

No cais também se falava do horizonte, enquanto as lagartixas corriam sobre os calhaus mais afastados das arremetidas da maré. Retornava-se a casas e fazendas distantes, entre aventuras e muito trabalho. Cada um fazia por contar proezas invulgares, como se tal lhes conferisse valor, riqueza ou admiração numa atmosfera onde as hierarquias de anos se tinham transformado em destino comum ante a incerteza do regresso.

Ao fim da tarde, o cais concitava novas atenções. Dali transmitia em directo uma estação de rádio, num programa conduzido por uma jornalista recém-regressada de Moçambique. Era o «Entardecer», quase, na totalidade, preenchido com intervenções do exterior. Em tempo mais propício à difusão da palavra do que de música, este programa alcançava considerável nível de audiência. Tratava-se de uma crónica da cidade, com imagens vivas do quotidiano.

A 22 de Novembro, o «Entardecer» foi dedicado às traineiras vindas de Benguela. A jornalista conhecia bem a temática dos refugiados. Durante quase uma hora sucederam-se entrevistas sobre a problemática viagem.

Felismina ligava sempre o seu aparelho de telefonia na sua hora de repouso, antes da preparação do jantar. Atirava-se para uma cadeira junto da janela, e ficava-se a olhar as serras do Estreito e o Cabo Girão. Bebia aos goles a sua infusão de hortelã-pimenta e, por vezes, deliciava-se com duas ou três bolachas Maria, retiradas pausadamente de uma antiga caixa de chocolates. De vez em quando, molhava a bolacha no chá, saboreando-a, enquanto parecia descortinar alguém distante através da vidraça.

O regresso daquela gente de Angola, em barcos de pesca, deixou-a pensativa. Veio-lhe depois uma enorme angústia. Já não conseguiu jantar. Também não atendeu ninguém nessa noite. Nem conseguiu dormir, tão perturbada se mostrava.

Manhã cedo, espreitou pelo tapa-sol a passagem, pela sua porta, do Remígio, motorista de táxi que habitualmente àquela hora se dirigia para a estrada, onde, resguardado pelo lampião, costumava deixar o seu Mercedes.

Felismina decidira ir ver o que se passava na cidade. Nada como se certificar do que ouvira pela rádio. Se o regresso das traineiras fosse real, então aproximava-se o fim, e entregue a estes pensamentos entrou no automóvel.

Remígio estranhou o procedimento de Felismina e, apesar da sua prática em meter conversa com os passageiros, nada conseguia arrancar da sua vizinha. Acabou por se calar, julgando que ela já lhe adivinhava os segredos muito bem guardados na sua viatura. Mas qual nada, ela apenas ia remoendo as histórias do último «Entardecer», enquanto o percurso parecia maior do que habitualmente.

Até ao centro do Funchal foram só quinze minutos. Eram agora 6:15 h na torre da Sé. Com a lua cheia, as Desertas, entre a escuridão, pareciam mais próximas. O luar abatia-se pela baía e as traineiras mal iluminadas recortavam o amanhecer.

Felismina aproximou-se da varanda do cais com um olhar penetrante e misterioso. Fixava os barcos de pesca, mas parecia não estar ali. Depois foi esquadrinhando o mar raiado pela lua e já via no espelho de água outros regressos. D. Sebastião voltaria numa manhã de nevoeiro e, acercando-se da ilha, logo desenterraria a sua espada, há muitos anos guardada no Ilhéu da Cruz.

Naquela manhã não havia neblina, e os regressos que sobre a água se desenhavam eram de gente simples. Mas ela temia pela ilha que, tendo emergido das profundezas do oceano, ao fundo não poderia regressar. A não ser que tudo fosse mentira e a espada do malogrado rei lá não estivesse.

Pela proa do Santo António já algumas pessoas se movimentavam. Felismina avistava-as, pensando na mãe e na espada que desferira golpes violentos em Alcácer-Quibir. A mãe, a avó e outros vultos, que não conseguia identificar, segredavam-lhe insistentemente que, se a espada fosse retirada da rocha, onde havia sido escondida, as águas subiriam até às escadas da Senhora do Monte, antes da ilha regressar às entranhas da terra.

Felismina calcorreava agora por sítios que parecia mal conhecer e, entre o repetido «santo e a vizinha», balbuciava palavras aparentemente sem sentido. A sua perturbada pressa despertava a curiosidade dos transeuntes. Depois de cerca duas horas de tão estranha caminhada, sentava-se finalmente no miradouro, mas parecia não ver a cidade nem o porto. O mar visto daquela altura parecia calmo. Ela continuava a falar do «santo e da vizinha», da espada de D. Sebastião e da água a beijar os pés da Senhora do Monte.

Até o dia de ontem, sempre se convencera de que a lenda, que da sua mãe vezes sem conta havia escutado, era mesmo lenda. Para reforçar essa ideia apregoava aos que a visitavam que «O Santo e a Vizinha nunca se haveriam de afundar». No entanto, depois de ter observado as traineiras e de saber do regresso de tanta gente, a confusão hospedara-se na sua mente. Ouvia aproximarem-se os exércitos reais, escutava os passos dos soldados e o galope dos cavalos. Ergueu-se, então, e, com dificuldade, trepou para o varandim do miradouro. Lá em baixo, o mar parecia chamá-la. Sentia o choro dos filhos junto ao calhau. Queria juntar-se a eles. Mas as proeminências rochosas assustavam-na.

Nesses momentos de hesitação, sentiu uma mão forte, segurando-a. Remígio, entre perguntas e alertas, logo a fez descer. Felismina explicou-lhe que os exércitos e o rei estavam a chegar. Remígio cortou-lhe a palavra, lembrando-lhe de que, nesse dia, não havia nevoeiro. Com determinação, levou-a para o carro. Depois de se certificar de que as portas estavam bem fechadas, pediu desculpas ao casal, que ali conduzira para observar a paisagem, por ter de interromper o percurso. Num inglês aceitável, disse-lhes que observassem tranquilamente a paisagem, porque dentro de meia hora lá estaria para continuar a excursão.

     

Revista Girão, Câmara de Lobos – Madeira, vol. II, n.º 1, 2005, pp. 29-32; traduzido para italiano e publicado com o título «Il santo e la vicina», in FOURNIER, António (a cura di), Nostalgia dei Giorni Atlantici, Asti: Scritturapura Editore, 2005, pp. 207-213.

 

 

 


O Dia Internacional da Mulher tem a sua origem nos movimentos socialistas do início do século passado, associados à luta pelo direito de voto da mulher, ao reconhecimento da sua dignidade e à prerrogativa de participar activamente na construção de uma sociedade mais justa.

 

Habitualmente, o 8 de Março aparece relacionado com suposto episódio dramático, que a pesquisa histórica não legitima. Independentemente dos fundamentos da data, importa, todavia, referir que, desde 1909, se começou a festejar, nos EUA, o Woman´s Day e, posteriormente, em diversos países da Europa, de início sem data fixa. Pretendia-se, com esse dia, consciencializar a mulher para o valor da sua pessoa e do seu papel na sociedade. Simultaneamente, procurava-se suplantar tradicionais preconceitos e discriminações absurdas.

 

Sem menosprezar os ideais socialistas, as lutas operárias e os movimentos sufragistas, entendemos que a valorização da mulher, como pessoa e como cidadã, está também intimamente associada à educação e à revolução sexual.

 

O acesso da mulher à escola, em particular à instrução pública, inicia-se no século XIX, apesar de muitos autores, em épocas anteriores, terem preconizado o direito da mulher à educação.

 

Em Portugal, a Constituição de 1822 determinou o estabelecimento de escolas, para ambos os sexos, em todos os lugares do Reino onde conviesse, para que se ensinasse a mocidade portuguesa a ler, escrever, contar e o catecismo das obrigações religiosas e civis.

 

Contudo, é só na década de 1840 que se verifica a difusão da instrução primária para o sexo feminino no nosso país.

 

O acesso generalizado das meninas à escola pública foi dificultado pela falta de estabelecimentos de ensino, mas também pela oposição dos pais, que invocavam necessidades da economia doméstica ou resistiam aos «perigos» da educação das suas filhas, temendo virem a ser menos submissas e, por conseguinte, pouco reputadas para o casamento.

 

A imprensa teve papel relevante na promoção da educação da mulher, difundindo novas ideias e sensibilizando a opinião pública para a necessidade da frequência da escola, por ser pouco significativa face ao número de crianças recenseadas.

 

No entanto, não foi de menor valor a acção das professoras na motivação dos pais para matricularem as filhas nas escolas oficiais e se comprometerem na assiduidade. É também de justiça mencionar a dedicação dessas professoras, sobretudo as das freguesias rurais, num tempo de comunicações difíceis, instalações precárias e comodidades inexistentes. Em boa medida, o seu empenho e as muitas horas de trabalho, para além do horário estipulado, promoveram o sucesso escolar.

 

O acesso da mulher à Educação foi, sem dúvida, determinante para a sua emancipação e ascensão social. Não se julgue, porém, que escolarização significa igualdade de oportunidades, por exemplo, no mercado de trabalho. Prevalecem ainda muitas desigualdades e atitudes discriminatórias. De resto, a própria educação da mulher continua a ser um dos problemas da actualidade, em muitos países.

 

No processo de emancipação da mulher, revelou-se fundamental a possibilidade de ela própria controlar, com eficácia, a natalidade. A generalização do uso da pílula anticoncepcional, na década de 1960, permitiu à mulher evitar gravidezes indesejadas e fruir livremente da sexualidade.

 

A revolução sexual dos anos sessenta possibilitou à mulher outra visibilidade e, consequentemente, intervenção mais dinâmica na sociedade, inclusive ao nível político, como aconteceu com as manifestações de protesto contra a guerra do Vietname.

 

Falava-se, então, da libertação da mulher, tendo sido retomada a ideia da internacionalização do seu dia, embora com motivações diversas das do início do século.

 

Em 1975, a ONU declarou o 8 de Março como Dia Internacional da Mulher, no âmbito do Ano Internacional da Mulher, então comemorado, e trinta anos depois de a Carta das Nações Unidas ter proclamado o princípio da igualdade de direitos dos homens e das mulheres.

 

O fim da discriminação e da violência de género é um dos grandes objectivos deste dia.

Diário de Notícias, Funchal, 8 de Março de 2009

 

 

 

RESULTADOS DA ELEIÇÃO REALIZADA PELO CONSELHO GERAL DA UNIVERSIDADE DA MADEIRA, A 3 DE MARÇO DE 2009

Prof. Doutor Castanheira da Costa: 17 votos a favor, 3 contra.

Prof. Doutor Manuel Teixeira: 4 votos a favor, 10 contra e 6 abstenções.

Prof. Doutor Carlos Nogueira Fino: 3 votos a favor, 13 contra, 3 abstenções e 1 em branco.

Investigadora Coordenadora Isabel Cabrita: 2 votos a favor, 8 contra, 9 abstenções e 1 em branco.

 

Como era esperado,  foi eleito o cabeça da lista vitoriosa no escrutínio para o Conselho Geral, realizado a 4-12-2008.  Logo,  o novo Reitor reúne o apoio da maioria dos professores da UMa.

A 7-12-2008, escrevi:

«[...] pelos resultados do escrutínio do passado dia 4, pelo seu perfil idóneo e pela interpretação que, a devido tempo, assumiu do papel do Reitor, face à dinâmica que o Conselho Geral obrigatoriamente imprimirá, o Prof. Castanheira da Costa reúne todas as condições para se apresentar como candidato à vitória.»

Curioso, na votação de hoje do Conselho Geral,  é o facto de um candidato de outra Universidade (Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa), praticamente desconhecido na Madeira,  ter ficado em segundo lugar, obtendo mais um voto a favor do que um professor da UMa e menos três votos contra.

 

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Joaquim Pestana

Poeta

Câmara de Lobos, 24-12-1840 – Funchal, 06-02-1909

 

“Considerado dentro da época literária em que viveu, a do Romantismo, Joaquim Pestana foi um dos mais distintos e prolíferos poetas líricos deste arquipélago. Como poeta do género ultra-romântico, seguiu a Escola do seu fundador, A. A. Soares dos Passos, filiando-se na corrente do Novo Trovador, cujas composições se inspiravam no sentimento e na natureza, e eram repassadas dum lirismo melancólico, saudosista e doentio.”

 

Eduardo C. N. Pereira (1959). Joaquim Pestana.

Das Artes e da História da Madeira, n.º 29, Funchal, p. 29

 

 

A MULHER DO PESCADOR

(Canção)

 

Em céus e mares escuros

luz sempre a estrela da fé.

T. Ribeiro, Indiana

 

Dorme, filho sossegado,

que teu pai não tarda, vem;

vejo o mar encapelado,

a bramir na praia, além!

 

Dorme, dorme! Que sorriso

tu m’imprimes no dormir!

aí bem pode o paraíso

te mostrar um só fruir.

 

Quem me dera, inocentinho,

ver do céu a tua luz,

embalado aqui, sozinho,

sem gozar do mundo a cruz!

 

Sem sentir meu Deus, a vida

que, tão triste, me foi dada;

ver-me quase sem guarida,

sem amor, sem luz, sem nada!

……………………………

……………………………

Dorme, filho, sossegado,

que teu pai não tarda, vem;

vejo o mar encapelado,

a bramir na praia, além!

 

Diário de Notícias, Funchal, 28 de Julho de 1877

 

 

 

AOS PÉS DA CRUZ

 

Só tu, Senhor, só tu, no meu deserto

Escutas minha voz que te suplica.

A. Gonçalves Dias

 

Atende a queixa saudosa

Do meu cantar doce e crente:

— «Perdi meu céu cor-de-rosa

De repente.

 

A aurora vinha raiando,

Vestia-a o campo de flores;

Dizia a virgem cantando:

— Meus amores;

 

O sol descai no poente

Dourando a face do mar;

A brisa vem docemente

Suspirar.

 

A pomba voa nos ares,

É bela a cor da romã;

O seio não tem pesares

De manhã.

 

Ali, no lago de prata,

Eu vou meu rosto mirar;

Também a noite retrata

De luar.

 

A terra tem luz e flores,

O mar a vasta amplidão;

Quem ama não sente dores,

Meu irmão!…»

 

Depois a nuvem sombria

Desfez a luz dessa aurora!

Por isso a dor me crucia

Mesmo agora!

 

Oh! vem tirar de minha alma

A triste cor deste véu!…

Contigo o pranto se acalma,

Luz do céu!

 

Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, 1904

 

Na passada sexta-feira, ocorreu o primeiro centenário da morte de Joaquim Pestana, poeta nascido em Câmara de Lobos a 24 de Dezembro de 1840 e que morreu no Funchal em 6 de Fevereiro de 1909.

 

Na agenda Câmara de Lobos – Município da Cultura, 2009, a data não foi assinalada.

 

Diversas vozes, em várias épocas, chamaram a atenção para a obra literária de Joaquim Pestana, a fim de não cair na tumba do esquecimento. Igualmente, muitos têm sido os apelos para que a Câmara Municipal de Câmara de Lobos edite a sua produção poética, inédita ou dispersa por publicações periódicas.

 

Em 1990, por ocasião do 150.º aniversário do seu nascimento, José António Gonçalves (1954-2005), na revista Girão, dedicou um artigo ao poeta e anunciou que a edilidade câmara-lobense se mostrava sensível à publicação de um volume de poesia de Joaquim Pestana.

 

Nesse artigo, Gonçalves surge como «coordenador da próxima edição de Espinhos e Flores, de Joaquim Pestana, a ser lançada com o patrocínio da Câmara Municipal de Câmara de Lobos».

 

Deste projecto editorial falou também José António Gonçalves, com o entusiasmo que lhe era característico, num programa Pôr-do-Sol da RTP-Madeira, conjuntamente com Manuel Pedro Freitas. Aí anunciou a edição da obra, que preparava, na colecção Terra à vista, por si idealizada, da editora Arguim. Revelou ainda ter consultado os inéditos de Joaquim Pestana, então na posse do Engenheiro João Francisco Ferreira, nomeadamente a colectânea Espinhos e Flores.

 

A prometida edição não chegou, porém, a concretizar-se. Contudo, Manuel Pedro disponibilizou, em Câmara de Lobos: dicionário histórico, corográfico e biográfico, uma colectânea de poemas e textos de Joaquim Pestana, alguns dos quais publicados anteriormente na revista Girão [1].

 

Espinhos e Flores é o título da colectânea de poemas que Joaquim Pestana preparou para edição, mas que não chegou a vir a lume. Já em 1901, o poeta referia a intenção de publicar este livro.

 

O Padre Eduardo Pereira (1887-1976) herdou este inédito e outras espécies do acervo do poeta câmara-lobense, seu amigo, e a quem assistiu na hora da morte. Tanto este sacerdote católico quanto o Visconde do Porto da Cruz, na década de 50 do século passado, lembraram à Câmara Municipal de Câmara de Lobos a necessidade de editar Espinhos e Flores.

 

Referindo-se à imprescindível antologia do poeta, Eduardo Pereira escreveu, com mágoa, em 1959: «Fica a iniciativa para quando houver em Câmara de Lobos uma edilidade que, interessando-se por resgatar a memória do poeta do laconismo e lamentável esquecimento em que vive, lhe fizer justiça e o impuser à admiração dos seus conterrâneos, presentes e vindouros.»

 

Nos anos 90 do século passado, com Manuel Pedro Freitas, José António Gonçalves e José de Sainz-Trueva, sugerimos a publicação da obra de Joaquim Pestana à Câmara Municipal de Câmara de Lobos. No entanto, até hoje não se verificou a esperada e merecida edição em livro.

 

Estando estatisticamente demonstrado o pouco investimento da maioria das autarquias na Cultura, nunca é por demais insistir na necessidade de associar o município da Cultura a iniciativas duradouras. Espectáculos, torneios desportivos, cortejos, iluminações, fogo de artifício, arraiais, tudo isso é atractivo, enche o olho do eleitor, mas é efémero. Pouco tempo depois nada ficará na memória. Urge, pois, investir naquilo que perdura. Um livro, por exemplo, será útil a muitas gerações e permanecerá disponível durante largo tempo.

 

Assim, a Câmara Municipal de Câmara de Lobos tem, neste ano festivo, a obrigação moral de resgatar a memória de Joaquim Pestana, promovendo a edição de uma antologia da sua poesia e celebrando a memória de um distinto homem de letras que, no seu tempo, engrandeceu a terra que o viu nascer e divulgou-a até onde chegou a sua escrita.

 

Diário de Notícias, Funchal, 8 de Fevereiro de 2009

 

 



Mudar-se para uma ilha desabitada, atear fogo para desbravar cerrado arvoredo e matagal, tratar, de imediato, da subsistência e, quiçá, da riqueza, escondida nos solos férteis, partilhar o espaço com vizinhos desconhecidos e avistar no mar ignotos navios, despertou temores, mas gerou também, entre os mais afoitos, vontade intrépida de vencer.

 

Maria acreditara na viagem, e, logo nos primeiros dias, entregou-se à nova terra. Ajudou na construção da casa, dispôs os seus haveres e armou um oratório com o Santo António, que sempre alumiava quando o medo lhe prendia a fala e os movimentos.

 

O trigo germinou. As vinhas deram bons frutos. Os canaviais trouxeram a almejada prosperidade. O povoamento obteve reconhecido sucesso. A riqueza e alguns feitos heróicos nos mares e no Norte de África iam afidalgando a gente principal.

 

A cidade nasceu por vontade do Senhor da Ilha. Foi, porém, na qualidade de rei que D. Manuel lhe passou a respectiva carta. Elegeram depois S. Tiago Menor como protector, quando o mal da peste enlutava o burgo.

 

Os corsários, em 1566, saquearam o Funchal e carregaram riquezas que os navios da sua armada não puderam transportar. Ironicamente, venderam o excesso à população espoliada.

 

Maria e os filhos esconderam-se nos montes e, durante dias, repartiram frugalmente pães e frutos.

 

Conforme testemunhou o cronista Jerónimo Dias Leite, em 1579, nesses dezasseis dias de devastação, os da ilha ficaram «pobres e desbaratados que ainda hoje em dia não podem levantar cabeça deste aleijão».

 

O ouro branco entrou em declínio por meados de Quinhentos. O comércio decaiu com a União Ibérica. Na primeira metade do século XVII, os tempos de riqueza eram meros registos da História passada.

 

Outro produto da terra haveria para aproveitar e exportar. Os vinhedos alastraram e, durante quase dois séculos, possibilitaram comércio próspero, atraindo muitos mercadores britânicos, hábeis na sua arte e engenhosos na astúcia.

 

A reconversão da cultura sacarina trouxe também o abandono da exploração directa da terra pelos seus proprietários, a proliferação de novos contratos agrícolas e o famigerado sistema de colonia.

 

O caseiro temia o senhorio ou o seu feitor, alguns deles bem conhecidos por muitas arbitrariedades e violências.

 

Maria vivia angustiada por, em qualquer momento, poder o senhorio denunciar o contrato e expulsá-la da pequena parcela agrícola, sem certeza de pagamento das benfeitorias.

 

Se não chovia ou o navio carregado de pão tardava, a Senhora do Monte e o S. Tiago eram convocados à Sé. Pela clemência divina ou circunstâncias naturais, dissipava-se o medo, até outra ocasião. Contudo, era tempo de remorso espicaçado por pregadores coléricos que congeminavam uma cidade de pecados.

 

Maria chorava devagarinho os pecados que não sabia ter cometido, a fome que lhe subia à cabeça e a teimosia embarcadiça do Manuel que também a agitava interiormente.

 

A vontade de ultrapassar a miséria e a fome ou a amarga incerteza do futuro ditaram muitas partidas para terras ditas de promissão.

 

Houve, entretanto, muitos que chegaram pela fama dos bons ares da terra. Deambulavam pelo Funchal com ar pálido e tosse abundante. Na cidade, receava-se a tísica, mas aos forasteiros não se recusava excepcional hospitalidade e idolatrado reconhecimento pelo ganha-pão.

 

Maria servia na quinta pelo dia e à noite bordava à luz do candeeiro de petróleo para o enxoval. Depressa ficou doente como os senhores que tinham arrendado a quinta do Conde.

 

Quando as chuvas copiosas se abriam, receavam-se aluviões. Numerosas vidas e habitações eram destruídas. Guardava-se isso na memória e recordava-se em tardes de invernia. As ribeiras caudalosas, embora se fizessem anunciar, avançavam impiedosamente pela cidade, quando ainda não tinham muros disciplinadores.

 

Pacificados os mares por a pirataria ou a guerra de corso ter sido abandonada ou condenada pela diplomacia internacional, outros ataques surgiram. A cidade foi bombardeada, por duas vezes, na Grande Guerra.

 

Na Primeira e Segunda Guerras Mundiais, temeu-se a fome, enfrentou-se o racionamento, suspeitou-se de vultos estranhos no horizonte. Havia papéis colados nas vidraças funchalenses, no tempo de Hitler, para impedir eventuais estilhaços.

 

Maria corria as mercearias. Apesar do seu encanto e de umas moedas no bolso, a maioria das vezes, não conseguia suprir as faltas da sua casa, principalmente, açúcar, arroz e milho.

 

Com a Inquisição e a Ditadura, desconfiava-se do vizinho ou do companheiro, do denunciante fervoroso ou do abjecto bufo pidesco, temor ainda reinante, mas com novos ingredientes e delicados contornos, sobretudo nos cafés, locais de trabalho e prestigiadas instituições do Funchal.

 

Cuidadosamente, Maria olha sempre em redor e para cima e para baixo, quando conversa com as amigas. De certeza, sabe não haver ninguém à volta, que o muro é alto, e nem o gato passeia por lá, porque há muitos anos alguém mandou calcetar o topo com cacos de vidros verdes de garrafas partidas. Por vezes, Maria baixa a voz, esconde o seu pensamento entre meias-palavras, num discurso quase indecifrável. Recusa falar ao telefone e não possui telemóvel, apesar de o filho lhe ter oferecido um pelo aniversário, temendo que a mãe se sinta mal ou se perca pelas ruas novas da cidade, onde já não se orienta tão bem.

 

Teimosamente, ela continua a percorrer ruas estreitas e a visitar velhas amigas, falando, com cautela, sobre medos antigos, mesquinhices e invejidades da cidade, mas não de bichos ou almas errantes que confessa não lhe meterem medo…

 

Raramente se cruza com a outra Maria, mais nova e mais elegante, sua vizinha noutros tempos, não muito distantes, embora convenientemente esquecidos por uma ascensão profissional meteórica de quem deixou o prédio, após dias difíceis. Detestam-se mutuamente. A mais velha fala de medos, invejidades, a já cinquentona incentiva a denúncia, cultiva finamente o poder, promove o medo e, num ápice, quebra o verniz, mordendo os lábios grossos, quando a inveja se solta dos olhos, transfigurando-se-lhe o rosto, como se nele se estampassem traços atávicos de estranhas partes, de presunçosas gentes que outros medos trouxeram ao Funchal.  

 

Revista Margem 2, n.º 25, Funchal,

 Dezembro 2008, pp. 77-79

 

 

Um livro constitui sempre boa prenda, embora a sua escolha seja, por vezes, difícil. No passado Natal, coloquei, no meu sapatinho, Cartas a Lucílio, de Séneca, obra que há muito procurava obter.

 

Séneca nasceu em Córdova, no início da nossa era. Em Abril do ano 65, suicidou-se, por ordem do imperador Nero.

 

Para este pensador latino, a filosofia é para ser vivida e corresponde a uma necessidade de libertação do espírito, face às problemáticas da vida.

 

As Cartas a Lucílio constituem a obra mais importante do filósofo estóico e iniciam um novo género até então desconhecido na Literatura Latina, ou seja, a correspondência pedagógica.

 

Entre muitos assuntos e vivências do quotidiano, Séneca, nas cartas ao seu amigo Lucílio, reflectiu também sobre a Educação que, em seu entender, deveria privilegiar a formação da vontade assente no desprendimento das coisas supérfluas. Só o estudo, que tivesse por objectivo a virtude, tornaria o homem livre. A prática da virtude conduziria à felicidade, entendida como bem moral.

 

Para além das concepções sobre Educação, que, particularmente, me interessam, a leitura de Cartas a Lucílio possibilita uma visão da natureza humana e dos valores morais com inegável actualidade. Verifica-se, pois, manifesta intemporalidade de muitos dos problemas tratados nesta obra.

 

Esta constatação leva-nos a um importante debate no domínio dos currículos escolares. Nos últimos tempos, grandes autores têm sido banidos da Escola, em benefício de narrativas marginais, alegando-se resposta mais adequada à diversidade cultural das sociedades contemporâneas.

 

O carácter universal da cultura clássica e o legado cultural da Humanidade têm sido postos em causa pela pedagogia crítica pós-moderna, de influência marxista, que rejeita o estatuto de cultura superior a determinadas obras literárias e valoriza as narrativas particulares e específicas dos subordinados pela raça, género ou classe, ou seja as narrativas marginais que, de acordo com Giroux, «representam o irrepresentável».

 

A educação científica e tecnológica tem vindo também a sobrepor-se à educação humanística, com resultados negativos na formação integral da juventude.

 

Já muitas vozes se têm levantado contra este rumo da Educação, sublinhando, em particular, os prejuízos, que advêm para os estudantes, pela falta de leitura dos autores de referência, num momento crucial da sua formação.

 

Mortimer Adler (1902-2001), com a teoria pedagógica da Paideia e a utilização da maiêutica socrática, procurou introduzir, na Escola, o estudo de Grandes Obras, através de um currículo liberal e humanista. Contudo, pouca atenção mereceu o pensamento pedagógico deste autor.

 

Em Portugal, vários professores de Português têm publicamente criticado os currículos da sua disciplina, sobretudo pela forma como é tratada a nossa literatura. Saliente-se, em particular, as oportunas intervenções de Maria do Carmo Vieira na imprensa e em vários colóquios, sobre o «amaldiçoamento dos autores clássicos».

 

Verdade é que esta situação já não se restringe ao ensino básico ou secundário. Por razões diversas, também na Universidade se verifica a falta de leitura dos autores fundamentais em determinadas áreas do saber, proliferando, com incrível complacência, as citações indirectas, tantas vezes descontextualizadas.

 

Contudo, nunca, como hoje, estiveram tão acessíveis os grandes autores ou as obras-primas, quer através das edições tradicionais, quer das promoções dos periódicos, quer ainda das bibliotecas digitais.

 

Se há tantas Grandes Obras disponíveis, por que razão não abundam os leitores, sobretudo os mais jovens?

 

Esta matéria deveria interessar os responsáveis pela Educação deste país, em especial os autores dos currículos escolares, pessoas que, normalmente, trabalham por encomenda, não assinam o produto final e nunca são responsabilizados pelo insucesso nas disciplinas cujos programas delinearam.

 

Diário de Notícias, Funchal, 4 de Janeiro de 2009

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