Em conversa recente, concluía-se que «tudo não passava de mera luta pela sobrevivência». A frase, fria e convincentemente pronunciada, impôs-se, de imediato, como mote para a crónica deste dia.
Como se sabe, a luta pela sobrevivência não se resume à satisfação de necessidades básicas. É, porém, certo que quase tudo passa por aí. No início dos tempos, o homem foi buscar à Natureza alimentos e instrumentos de que necessitava. Vivia o período da economia de recolecção. Mas, mesmo nessa época, a actividade humana não se restringiu à caça, pesca, recolha de frutos e ovos ou a outras necessidades fisiológicas. Houve também lugar para a arte e a espiritualidade. No Neolítico, começou o homem a dominar a Natureza, a cultivar e a domesticar, para garantir o seu próprio abastecimento em comida, procurando já armazenar grãos até novas colheitas.
Desde a Pré-História até à actualidade, assegurar o pão e as comodidades tem sido preocupação dominante.
No entanto, a sobrevivência, de que falávamos, era outra. Tratava-se de subsistir em termos de mando ou influência, e de todo o aparato que o culto do grude envolve.
A disputa democrática do poder constitui inquestionável manifestação de cidadania. Já a alternância partidária corresponde a um estádio dos regimes democráticos, onde à oposição são reconhecidos, através do sufrágio, o mérito do seu programa e o trabalho em prol da sua afirmação como alternativa.
Contudo, no terreno, proliferam, com frequência, clientelas poderosas, expectativas e laços que condicionam a liberdade e a opção de alguns cidadãos, como é humano e natural, preocupados com o seu futuro.
O mote da sobrevivência, assaz invocado e, já pelo fim, envolvido, em saudável ironia, na aludida conversa, dizia respeito ao quotidiano dos pequenos grupos que, tendencial e perniciosamente, se transformam em «capelinhas», sem orago reconhecido fora do adro, mas com tementes fiéis e farsas ensaiadas de véspera e representadas, em dia aprazado, com acabrunhante despudor.
Por desgraça, «capelinhas» destas abundam. Com elas, o interesse superior fica sempre ameaçado. A sua actuação discreta, mas corrosiva, engenhosa, mas intolerável, delicada, mas perversa, envernizada mas imunda, tudo numa lógica febril de relações de poder, vai minando os alicerces das instituições, dificultando reformas necessárias e obstruindo prementes inovações.
Há que permanecer atento a essas manobras de sobrevivência no poder, em especial por parte dos «sacristães de capela», e conservar a verticalidade e a forte motivação para um trabalho honesto e persistente, mesmo quando o insulto é uma arma, a demagogia uma especialidade e a sede de vingança a crónica histeria.
Sobretudo importante é cultivar a serenidade e a esperança, não recear, porque, afinal, ninguém sobrevive à morte.
Por outro lado, convém não esquecer o grande ensinamento do Padre António Vieira, de que sempre me socorro, e com ele termino, por uma questão de sobrevivência: «Sabeis porque vos querem mal vossos inimigos? Ordinariamente é porque vêem em vós algum bem que eles quiseram ter, e lhes falta.» (Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma, Lisboa, na Capela Real, 1649, § III)
Diário de Notícias, Funchal, 7 de Junho de 2009