O filósofo francês Georges Gusdorf (1912-2000) sublinhou a necessidade da existência de «especialistas da não especialidade», ou seja, de homens e mulheres de cultura científica e humanística que vissem para além do ramo estreito que estudaram.
Esta afirmação, associada a outras teses suas sobre interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, vem sugerir a premência da abertura de pensamento para o «campo unitário da cultura». Não se trata somente de reunir especialistas de diferentes ramos do saber («interdisciplinaridade por justaposição ou por adição», segundo Gusdorf), mas antes procurar o saber universal. Daqui decorre nova forma de conhecimento. Uma cosmovisão totalizadora e unificadora. Um espírito científico aberto ao diálogo.
Em síntese, Gusdorf, neste particular, preconizava a «educação do sentido interdisciplinar», partindo do princípio que inúmeras especialidades fragmentavam o conhecimento e faziam desaparecer o sentido da unidade humana.

Logo, o professor deveria ser um «revelador da totalidade», proposta pedagógica que implicava profunda reformulação das mentalidades e consciência da unidade do saber.
Com efeito, as divisões do campo científico são traçadas com linhas artificiais. Existem apenas pela necessidade de sistematizar, tendo em vista pesquisa e conhecimento mais aperfeiçoados de determinados ramos do saber.
No entanto, se as delimitações de diferentes campos têm-se revelado, na sua maioria, úteis e fundamentais ao progresso científico, já os muros que, estupidamente, alguns criam à volta de uma determinada área, cerrando barreiras como se a «sua ciência» fosse um compartimento estanque, constituem desastrados empecilhos à cooperação, à inovação e à compreensão da totalidade, tão cara à filosofia e tão importante para a ciência contemporânea.
Esses nichos, que proliferam em alguns meios académicos, não se coadunam com um verdadeiro espírito universitário. Geram separações que dificultam o trabalho em comum, prioritário na instituição.
Quem estudou História facilmente tem consciência do todo que constitui o passado do Homem. O historiador tem, obrigatoriamente, de praticar a interdisciplinaridade, para compreender e explicar as vivências sociais.
Em História, constitui prática constante o intercâmbio com várias ciências ou a colaboração recíproca. Vejamos um exemplo: como explicar os efeitos da Peste Negra, sem recorrer à medicina, à economia, à política, à demografia, à religião, à antropologia, sem entender as práticas agrícolas medievais, os fenómenos do banditismo, vagabundagem e mendicidade, a atracção das cidades ou os mecanismos tributários, por exemplo?
Por outro lado, o historiador consciente sabe perfeitamente que os territórios da sua arte podem constituir especialidades ou subespecialidades. Todavia, serão sempre partes de um todo, divisível apenas por abstracção. Falamos em História Económica, História Social, História Política ou História Cultural. Mas todas estas especialidades são História. Representam sofisticadas divisões para o desenvolvimento de uma investigação mais profícua.
A História da Educação é, naturalmente, História, pese embora a sua afirmação no âmbito académico das Ciências da Educação. Tem um campo de investigação delimitado. Estuda uma parcela da actividade humana – a educação. Contudo, tem, em devida conta, outros aspectos da vida do Homem em sociedade e as estruturas políticas, administrativas e económicas. Constitui, sem dúvida, uma disciplina da área da História, uma investigação sectorial da História. E se recusar a sua natureza, radicalmente histórica, perderá credibilidade científica.
Os historiadores da educação devem envolver-se em projectos com outras áreas da História e das demais Ciências Humanas e Sociais e não se fecharem no seu recanto. Devem integrar-se na comunidade científica dos historiadores e contribuir para a promoção daquilo que verdadeiramente os une: a História.
Diário de Notícias, Funchal, 5 de Abril de 2009