O Dia Internacional da Mulher tem a sua origem nos movimentos socialistas do início do século passado, associados à luta pelo direito de voto da mulher, ao reconhecimento da sua dignidade e à prerrogativa de participar activamente na construção de uma sociedade mais justa.
Habitualmente, o 8 de Março aparece relacionado com suposto episódio dramático, que a pesquisa histórica não legitima. Independentemente dos fundamentos da data, importa, todavia, referir que, desde 1909, se começou a festejar, nos EUA, o Woman´s Day e, posteriormente, em diversos países da Europa, de início sem data fixa. Pretendia-se, com esse dia, consciencializar a mulher para o valor da sua pessoa e do seu papel na sociedade. Simultaneamente, procurava-se suplantar tradicionais preconceitos e discriminações absurdas.
Sem menosprezar os ideais socialistas, as lutas operárias e os movimentos sufragistas, entendemos que a valorização da mulher, como pessoa e como cidadã, está também intimamente associada à educação e à revolução sexual.
O acesso da mulher à escola, em particular à instrução pública, inicia-se no século XIX, apesar de muitos autores, em épocas anteriores, terem preconizado o direito da mulher à educação.
Em Portugal, a Constituição de 1822 determinou o estabelecimento de escolas, para ambos os sexos, em todos os lugares do Reino onde conviesse, para que se ensinasse a mocidade portuguesa a ler, escrever, contar e o catecismo das obrigações religiosas e civis.
Contudo, é só na década de 1840 que se verifica a difusão da instrução primária para o sexo feminino no nosso país.
O acesso generalizado das meninas à escola pública foi dificultado pela falta de estabelecimentos de ensino, mas também pela oposição dos pais, que invocavam necessidades da economia doméstica ou resistiam aos «perigos» da educação das suas filhas, temendo virem a ser menos submissas e, por conseguinte, pouco reputadas para o casamento.
A imprensa teve papel relevante na promoção da educação da mulher, difundindo novas ideias e sensibilizando a opinião pública para a necessidade da frequência da escola, por ser pouco significativa face ao número de crianças recenseadas.
No entanto, não foi de menor valor a acção das professoras na motivação dos pais para matricularem as filhas nas escolas oficiais e se comprometerem na assiduidade. É também de justiça mencionar a dedicação dessas professoras, sobretudo as das freguesias rurais, num tempo de comunicações difíceis, instalações precárias e comodidades inexistentes. Em boa medida, o seu empenho e as muitas horas de trabalho, para além do horário estipulado, promoveram o sucesso escolar.
O acesso da mulher à Educação foi, sem dúvida, determinante para a sua emancipação e ascensão social. Não se julgue, porém, que escolarização significa igualdade de oportunidades, por exemplo, no mercado de trabalho. Prevalecem ainda muitas desigualdades e atitudes discriminatórias. De resto, a própria educação da mulher continua a ser um dos problemas da actualidade, em muitos países.
No processo de emancipação da mulher, revelou-se fundamental a possibilidade de ela própria controlar, com eficácia, a natalidade. A generalização do uso da pílula anticoncepcional, na década de 1960, permitiu à mulher evitar gravidezes indesejadas e fruir livremente da sexualidade.
A revolução sexual dos anos sessenta possibilitou à mulher outra visibilidade e, consequentemente, intervenção mais dinâmica na sociedade, inclusive ao nível político, como aconteceu com as manifestações de protesto contra a guerra do Vietname.
Falava-se, então, da libertação da mulher, tendo sido retomada a ideia da internacionalização do seu dia, embora com motivações diversas das do início do século.
Em 1975, a ONU declarou o 8 de Março como Dia Internacional da Mulher, no âmbito do Ano Internacional da Mulher, então comemorado, e trinta anos depois de a Carta das Nações Unidas ter proclamado o princípio da igualdade de direitos dos homens e das mulheres.
O fim da discriminação e da violência de género é um dos grandes objectivos deste dia.
Diário de Notícias, Funchal, 8 de Março de 2009