O Senhor Presidente da República, na sua mensagem de Ano Novo, reconheceu que os portugueses reclamavam acções concretas dos governantes e mostrou-se solidário com “essa exigência de resultados”. Afirmou, depois, ser importante o registo de progressos claros em três grandes domínios da vida colectiva do nosso país: desenvolvimento económico, educação e justiça.
No que à Educação diz respeito, o Presidente deseja que 2007 “fique marcado por melhorias visíveis no funcionamento do nosso sistema de ensino”. A qualidade no ensino, o estímulo à excelência e o combate sem tréguas ao insucesso e abandono escolares têm também, em seu entender, que apresentar “sinais positivos já em 2007”.
É certo que o Presidente não exigiu resultados na Educação logo em 2007. Preferiu antes falar em “progressos claros”, “melhorias visíveis” ou “sinais positivos”. Aliás, muito cautelosamente, apenas referiu a exigência de resultados, quando, num contexto geral, invocou a vontade ou a insatisfação dos portugueses.
Como professor e político experiente, Cavaco Silva sabe muito bem que não há milagres em Educação. E que os resultados, neste sector, não são imediatos.
É verdade também que medidas diversas, ao longo destes últimos anos, têm sido implantadas em nome da qualidade no ensino, do estímulo à excelência e do combate ao insucesso e abandono escolares. Todavia, os resultados não surgem na escala desejada, seja pela incompletude das determinações governamentais, pelo precoce desaparecimento das mesmas em favor de outras com iguais ou piores contra-indicações ou por resistências diversas do sistema. Daí talvez a preferência do Presidente pela expressão “sinais positivos”.
Mas que significado terá tão subtil enunciação? Se os tais “sinais positivos” se referem a novas decisões políticas, serão apenas da cúpula. No entanto, o que todos esperamos é que o outro lado reaja afirmativamente. E esta reacção, a acontecer, virá, por certo, a longo prazo. Em Educação, há sempre que pensar num tempo mais longo e investir com seriedade nesses objectivos. A própria ministra da Educação acredita em progressos, mas não no ano em curso, salientando que o Governo trabalha para melhorar os resultados escolares desde 2005.
Naturalmente, só excessivo optimismo poderia levar alguém a acreditar que tudo o que o Presidente elegeu, para receber sinal positivo, vá melhorar neste ano.
Igualmente, de salientar nesta mensagem é a pretendida mobilização de professores, pais e alunos nas “políticas activas para valorizar a escola e estimular os jovens a prosseguir os seus estudos”.
Num tempo em que se assiste a frequentes depreciações públicas da classe docente por quem, institucionalmente, deveria contribuir para prestigiar esta profissão e legitimar a autoridade dos professores, quando se quebram expectativas de legítima promoção na carreira com critérios puramente economicistas, ainda que seja extremamente louvável a prevalência do mérito em vez do tempo de serviço, quando são colocados em rivalidade diferentes intervenientes no processo educativo, quando tudo está em ebulição, porque a tudo se quer pegar fogo, como se fará a mobilização ambicionada pelo Senhor Presidente da República?
Mais: quando pais saem à rua para apoiar alunos, que não querem aulas de substituição e preferem gozar os “feriados” a seu bel-prazer, mesmo com eventuais comportamentos de risco, como se fará a dita mobilização em favor da valorização da Escola? Quando pais ou encarregados de educação protestam porque a Escola pretende promover hábitos de disciplina e de trabalho, como pode a sociedade contar com esses cidadãos para melhorar a Educação no nosso país?
É certo que a mensagem presidencial de Ano Novo não poderá deixar de conter laivos de esperança, mas, no que concerne à Educação, apesar de abordar, ao de leve, questões cruciais, revela, no mínimo, estranha visão desfocada sobre o país real, parecendo-me o pedido de “sinais positivos já em 2007” um artifício retórico de uso corrente.
Diário de Notícias, Funchal, 7 de Janeiro de 2007
Caro Nelson,
Infelizmente, os órgãos governativos não têm a mínima ideia das razões da crise em que o sistema educativo se encontra, sendo por essa razão incapazes de a resolver. Recentemente publicamos uma análise, que identificou dois problemas principais, ao nível dos métodos de ensino de Português e da Matemática. Na sequência desta análise, foram propostas soluções simples e práticas. Uma outra conclusão prática, é que o remédio, mesmo aplicado hoje, ia precisar de uns 10 anos para dar os efeitos desejados, pois as raízes de problemas se encontram no ensino primário.
Cumprimentos,
José Carrancudo