Por meados de Janeiro, veio a lume Os náufragos do Mar da Palha, o novo romance de João Medina, editado por Livros Horizonte.
Não sendo este o espaço ideal para uma recensão crítica, afigura-se-me, todavia, que o discurso de Tito, a personagem central deste romance e, por vezes, uma espécie de alter ego do autor, interessa à formação da opinião pública, sobretudo pela visão sarcástica e arrasadora que manifesta a respeito de Portugal e da sua História.
O cenário resume-se ao café-restaurante “Mar da Palha”, situado na esquina do Beco dos Contrabandistas com a Praça da Armada, no Bairro de Alcântara, em Lisboa, no qual se reúne, todos os sábados de manhã, um grupo de amigos e ex-alunos de Tito, antigo professor de Filosofia no Liceu Pedro Nunes, para uma cavaqueira, inevitavelmente rematada com uma almoçarada.
Anarconiilista, natural de Moçambique, crítico implacável da “portugalidade degenerada e balofa”, “iconocolasta irreverente”, Tito, o “náufrago central” do romance, pontificava naquela tertúlia, ou melhor, naquele grupo, pois era ele quem fazia longos sermões, limitando-se os demais a ouvi-lo e, de vez em quando, a interpelá-lo com uma outra pergunta sem qualquer intenção de confronto.
O autor-narrador afirma reproduzir “páginas copiadas do real, a transcrição fiel dos sermões, invectivas, anexins, cóleras e paradoxos” daqueles encontros sabáticos no “Mar da Palha”. E, assim, o romance vive sobretudo dos longos e cáusticos monólogos de Tito, embora outras personagens e diferentes episódios venham a compor o enredo, inclusive as vivências amorosas e sexuais da personagem central, descritas com fino erotismo.
Tito, nas suas extensas dissertações, não se cinge a um determinado tema. As suas palavras jorram em catadupa irónica, espalhando-se de pronto em diversas direcções ao ritmo das guinadas imprevisíveis de arrebatada oratória, quer fale jocosamente do passado histórico, quer descreva com pessimismo mordaz a situação presente de Portugal, não poupando mesmo alguns políticos ainda vivos e no exercício dos seus mandatos, como o “patusco Ubu madeirense” que costuma chamar “rectângulo” ao Continente Português. Pelo meio, abundam variadas referências históricas, literárias, filosóficas, artísticas e musicais a atestar a vasta erudição desta personagem. E o autor-narrador, inúmeras vezes, antecipa ou corrobora as ferroadas corrosivas daquele “estrangeirado” no país de náufragos, agora em “Naufrágio Definitivo”.
No seu último sermão, antes de o “Mar da Palha” encerrar, Tito compara Portugal a “uma espécie de triângulo das Bermudas onde tudo desaparece e se dissolve, onde todos naufragam, nesta longa história trágico-marítima que é a crónica dos feitos lusitanos, desde o Afonso Henriques aos nossos dias” (p. 309). E após enunciar numerosas “imagens de marca” de Portugal, tema que João Medina em obra recente também tratou – Portuguesismo(s), Lisboa, 2006 –, ergue a interrogação vital, demoradamente construída com massa retórica: Portugal acabou?
Esta é de facto a tese do romance, requintadamente servida na baixela do naufrágio. E tal como já prenunciara no quarto capítulo, ao apelar para que os portugueses viajassem verticalmente para dentro de si próprios, “numa faina inédita de introspecção” (p. 48), Tito retoma, no final, esse desígnio, quanto a si, necessário e urgente, de vontade de novas aventuras, “feitas na vertical, para dentro de nós mesmos, e não mais para o largo, para além deste finisterra onde o sonho acaba e o naufrágio começa” (pp. 310-311).
Romance de tese – Os náufragos do Mar da Palha –, constitui insólito contributo para a compreensão da nossa identidade cultural e uma reflexão impiedosa e irreverente sobre a História de Portugal e o destino do nosso país, quando se constata “a horrível, persistente e esterilizadora ausência de verdadeiras e competentes elites políticas, culturais, profissionais, técnicas e científicas” e a “nulidade dos dirigentes que nos mais diversos domínios produzimos” (p. 19).
Diário de Notícias, Funchal, 4 de Fevereiro de 2007